VER-O-FATO: O “ARTISTA” PODEROSO DO BRASIL

sábado, 26 de dezembro de 2015

O “ARTISTA” PODEROSO DO BRASIL


Oswaldo Coimbra*
 
Performance é uma palavra que vem sendo usada, desde os anos de 1960, para designar a atuação oferecida como espetáculo, por alguém, num momento qualquer, fora dos espaços dos teatros. Uma atuação como a que teve nos corredores da Câmara Federal o presidente daquela Casa Legislativa, Eduardo Cunha, no dia 15, diante da multidão de jornalistas que o cercaram para ouvi-lo quando a Polícia Federal invadiu as residências e os escritórios dele. Em busca de documentos que comprovassem as denúncias feitas ao ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki pelo Procurador-Geral da República Rodrigo Janot, contra ele.
 
O desempenho do presidente da Câmara Federal naquela entrevista levou o advogado, professor da Fundação Getúlio Vargas, Jean Menezes de Aguiar, a escrever para o site Brasil247 um artigo com o título: “Admita-se, Eduardo Cunha é um espetáculo em frieza e equilíbrio”. No artigo, ele observou: “Inacreditavel sua calma cênica perante jornalistas famintos de seu fígado; seu imperdível raciocínio lógico, fazendo dos mesmos jornalistas uns ginasianos; e seu cinismo olímpico. Mostraram um Cunha realmente tranquilo. Arriscar-se-ia dizer: em paz. Quase bocejando, com preguiça. Ou para a ira de muitos: superior a todos ali. Não se tratava apenas de um comportamento blasé, mas de uma interessante calma interior”.
 
O advogado prosseguiu: “Quando se fala em 'calma', é uma calma que obviamente não condiz com o verdadeiro e custoso inferno judicial, político e público em que o deputado está enfiado. Até o pescoço”.
 
Jean, então, admitiu: “Cunha 'começa' a se mostrar uma personalidade interessante”. Ele comparou: “É o lindo e louco Stansfield do filme 'O profissional', vivido pelo maravilhoso Gary Oldman, ouvindo música clássica enquanto matava toda a família de Mathilda, a tiros de 12”. Uma prova disto: Cunha “garantiu que receber o camburão da Polícia Federal às 6 horas da manhã em casa, com ordem judicial emitida pelo Supremo Tribunal Federal 'né nada demais'. É coisa que qualquer brasileiro tem que encarar com naturalidade”.
 
No final do artigo, a previsão: “Cunha continuará a ser este prodígio de verborragia, fluidez léxica, agilidade mental e ilusionismo cênico. Talvez só perca a graça mesmo quando a polícia lhe visitar para levá-lo preso. Se acontecer, claro. Ou quando este Legislativo aí cassá-lo (será?). Aí, 'estima-se' que ele experimente um gosto ruim na boca. Ou não”.
 
Depois que este texto foi postado, na área reservada aos comentários dos leitores, dois profissionais da área da Saúde Mental trocaram pontos de vista. A psicóloga da Unicamp Vera Chvatal e o antigo diretor do Instituto Médico Legal, de Porto Alegre, psiquiatra Mareu Soares. Ela escreveu sobre Cunha: “As características de personalidade são claramente do psicopata. Por isso a inteligência, a frieza, a calma, o cinismo, o ar de superioridade”. Mereu respondeu-lhe: “Perfeito, Vera”. E adiantou: “Só vamos nos livrar de Cunha quando uma ação popular no STF exigir uma junta psiquiátrica e de psicólogos para examiná-lo. Tenho a certeza de que, então, ele será interditado para o exercício de qualquer função pública”.
 
Por coincidência, dias antes, Mareu tinha analisado detalhadamente a personalidade de Cunha, para outro site – o Imagem Política. Lá, ele se insurgiu contra a classificação de “delinquente” feita a Cunha por Rodrigo Janot, na sua denúncia ao STF. Janot que também tinha usado como epígrafe no seu texto esta frase de Mahatma Gandhi: “Tem existido tiranos e assassinos. E, por um tempo, parecem invencíveis. Mas, no final, sempre caem”.
 
Em discordância com ele, Mereu sustentou no artigo intitulado “205 milhões de brasileiros nas mãos de um psicopata”:
 
“Cunha não é um sujeito ‘eticamente desqualificado’. O caso dele é qualificado pelo Código Internacional de Doenças: Transtorno de Personalidade Dissocial. E, o mais dramático, essa patologia não tem até hoje possibilidade de cura. São pessoas sedutoras, cínicas e manipuladoras. Mentem exageradamente, sem constrangimento ou vergonha. Ao narrar fatos, costumam utilizar contextos fundamentados em acontecimentos reais, mas manipulados de acordo com seus interesses. Seduzem seus parceiros para convencê-los a fazer algo em seu lugar, evitando assim prejuízos a si mesmos. Jamais sentem culpa. Fingem ter comportamentos éticos para se infiltrarem em grupos sociais ou religiosos. Uma atitude fundamental, porém, é certa: jamais (se deve) dar condição de mando a esse tipo de doente. Os estragos que são capazes de fazer são quase inimagináveis”.
 
O temor de Mereu se espalhou através da internet no dia 21. No blog “Vergonha na cara”, apareceu uma foto do rosto de Cunha com esta frase em letras gigantes: “Todos contra o psicopata”. Três dias depois, a postagem acumulava 112 compartilhamentos.
 
Mas, afinal, Cunha é delinquente ou psicopata? Para o professor de Psicologia Guilherme Boulos, membro da coordenação nacional do movimento dos sem teto, ele é apenas a “expressão da captura das funções públicas pelos interesses privados”? Num artigo produzido para o site Jusbrasil, Boulos ressaltou: “O diferencial de Cunha - que espanta pela ousadia - é que ele constituiu uma bancada própria, com a fidelidade que o dinheiro assegura”.
 
O tempo certamente vai mostrar o verdadeiro Cunha. Ninguém, porém, duvide. No futuro, os brasileiros se indagarão “Como foi possível acumular tanto poder político alguém com as características psicológicas dele?”. Exatamente como se perguntam, hoje, os alemães, em relação a Adolf Hitler. Também performático. Na gesticulação exagerada dos seus discursos e nos seus quadros de pintura. Por isto, ironizado numa tela de Giuseppe Veneziano em que o pintor italiano o mostrou na pele de um violinista.

*Oswaldo Coimbra é jornalista e escritor

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