sábado, 5 de dezembro de 2015

A CRETINICE NACIONAL SOBE AO RINGUE E VAI ÀS REDES SOCIAIS


As redes sociais, sem dúvida, deram maior visibilidade à cretinice política que domina o País. É claro que essa cretinice sempre existiu, antes mesmo do surgimento da Internet e até bem antes de Nelson Rodrigues inventar o "cretino fundamental", aquele sujeito que é capaz de deturpar o que é óbvio. Nunca, porém, essa cretinice foi tão exacerbada e presente na vida cotidiana como agora. Ela está em todos os lugares, seja do mundo real - bar, escritório, repartição pública, rua, etc -, como no ringue virtual do Facebook, do Twitter ou de uma sala de bate-papo.

O impeachment da presidente da República Dilma Rousseff e a cassação do mandato do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, colocaram frente à frente a cretinice da direita, da esquerda, do centro e de outras tendências políticas que se abrigam sob o guarda chuva da conveniência de ser governo ou oposição, dependendo daquilo que lhe é oferecido. 

Para um cretino de esquerda, impeachment é golpe. Já para o cretino de direita, golpe é tirar Eduardo Cunha. Os cretinos de centro concordam com as duas alternativas, embora considerem que  a saída de Dilma e de Cunha não ajudaria o país a resolver seus problemas. Solução? Os centristas não as têm. Mas o que importa, não é mesmo? O importante é demonstrar cretinice. Se vivo fosse, Nelson Rodrigues teria munição de sobra para enriquecer seu repertório de genialidades.

O golpe, para um cretino, não precisa de fundamento, porque será sempre golpe. É a cretinice elevada à décima potência. Ou combustível de sobra para uma revolução, a revolução dos cretinos. Uma revolução, como acreditava Rodrigues, para dominar o mundo, oprimindo os não-cretinos. A tese rodrigueana é de que os cretinos fundamentais dominariam o mundo pela simples vantagem numérica e, também, por sua incrível capacidade de auto-organização.

Uma comédia americana, do gênero besteirol, é o filme Idiocracy. Deveria esse filme ser adotado no Brasil como uma espécie de espelho de vida dos nossos cretinos fundamentais que hoje são capazes de morrer, e matar, por Lula, Dilma, Cunha, Aécio, Bolsonaro, Feliciano, Jean Willys, Barbalho e Jatene. O filme é hilário, tem um roteiro meio abestado, mas é de matar de rir.

Conta a história de um americano médio, um pouco babaca, que vive nos tempos atuais. Ele é feito cobaia de uma experiência científica. Congelado vivo, o sujeito acorda 500 anos no futuro. O mundo que ele encontra deixa-o impactado. É um mundo bizarro, que o surpreende. A primeira surpresa é que a televisão e a comida fast food provocaram, com o passar dos séculos, uma diminuição radical da inteligência humana, de modo que todos ao seu redor são imbecis, e do tipo fundamental. 

A segunda surpresa, decorrente da primeira, é que ele se tornou o ser humano mais inteligente do planeta, para seu desespero. Tudo a ver com os cretinos que temos hoje proferindo insultos e agressões pelas redes sociais, uns atacando e outros defendendo governos e poderosos de plantão, cheios de empáfia e argumentos. O mundo descoberto pelo personagem principal de Idiocracy é caótico. O meio ambiente foi destruído e reina o caos. 

Os cretinos governam. Alguém falar de modo educado, usando um vocabulário com mais de 100 palavras, é logo tachado de "bicha" e vira objeto de piadinhas infames. É o retrato da nossa sociedade. "Ponha um cretino fundamental em cima da mesa e você manda ele falar, ele dá um berro e, imediatamente, milhares de outros cretinos se organizam, se arregimentam e se aglutinam", dizia Rodrigues. É um retrato do que hoje acontece no Congresso Nacional e não é mera coincidência. 

O próprio sistema eleitoral - nem é bom falar no educacional, pelo menos aqui, neste momento -  que temos privilegia a aglomeração dos votos de maiorias distribuídas em um grande território. Os cretinos fundamentais se reúnem, elegem seus representantes e começam a predominar. Quem assiste ao Idiocracy e acompanha as desventuras do protagonista, identifica-se com ele ao ponto de pensar "pô, mas é exatamente assim que eu me sinto no dia-a-dia!".

Isso não é um mero acaso, define o jornalista Victor Lisboa. Para ele, o que ocorre é o que chama de  efeito cretinatório. O efeito cretinatório é frequentemente experienciado pelos não-cretinos fundamentais: você sabe que não é particularmente inteligente, mas, cada vez mais, tem a impressão de que é um cara muito, mas muito esperto, ao menos na sua experiência cotidiana.

Essa ilusão ocorre porque, graças aos meios de comunicação de massa e a um sistema educacional que adestra consumidores ao invés de formar cidadãos, o número de cretinos fundamentais cresce de forma exponencial, a ponto de a distância entre duas pessoas medianamente (e põe medianamente nisso!) inteligentes ampliar-se de modo significativo.


Isolada em um mar de cretinice, a vítima do efeito cretinatório pode ter a impressão de que realmente é um prodígio de genialidade, quando não passa de um sujeito meio mané.  Não é difícil concluir que nós estamos diante de uma luta em dois fronts. De um lado, temos de lutar contra a tola vaidade de acreditar que somos realmente muito inteligentes, pois isso não passa de, digamos, um truque de ótica decorrente do efeito cretinatório. De outro, precisamos lutar para não sermos oprimidos pelos cretinos fundamentais e por sua revolução tão silenciosa quando catastrófica.

Claro, a saída mais fácil é, também, a mais covarde. Quem quiser que se deixe levar pelo fluxo e se misture com os cretinos. Será necessário algum esforço, mas creio que a maioria de nós logo conseguirá substituir suas próprias opiniões pelas manchetes e editoriais dos principais jornais do país. Felizmente, ainda não precisamos apelar para a estratégia maria-vai-com-as-outras. Temos a nosso favor um grande recurso: a internet, caótica tal como ela é (ao menos até que algum cretino fundamental decida regulamentá-la) une as vítimas da revolução silenciosa dos cretinos fundamentais, que podem solidarizar-se mutuamente por suas mazelas através de blogs, sites, twitters, grupos de discussão, fóruns e sites.

É verdade que esses mesmos instrumentos são utilizados pelos cretinos fundamentais para enviarem por email arquivos power points com mensagens de auto-ajuda, ou para publicarem no Facebook correntes do tipo cada compartilhamento curará o Zé das Couves de seu bicho-de-pé. Porém, não fosse a internet, nós, indivíduos não muito espertos mas distantes da cretinice fundamental, teríamos de estabelecer comunicação por meio de sinais de fumaça, sob pena de enlouquecermos esmagados pela mediocridade operante ou por nossas presunções arrogantes.

Mas, claro, nada é tão simples assim. Talvez exista um pequeno cretino fundamental dentro de todos nós, e todos os dias escolhemos se vamos alimentá-lo, fortalecê-lo ou, antes, se vamos manter vigilância para que ele se enfraqueça e suma de nossas cabeças. Portanto, o front dessa guerra talvez passe exatamente no meio de nossos corações, e a primeira batalha contra a imbecilização geral da humanidade comece por revisar todas as nossas atitudes cotidianas. 

O primeiro golpe contra o inimigo é perguntar-se, em um exercício de humildade, em quais de nossas ações diárias podemos estar agindo como espiões duplos dessa guerra e, nos comportando como cretinos fundamentais amadores, dando artilharia para o inimigo.

2 comentários:

  1. ainda bem caro jornalista que vc chamou a todos de cretinos, no final do artigo, pensei que era apenas nós pobres mortais e voce o Oráculo... mas vc falou e falou e não disse nada, se somos todos cretinos lá no fundo, tudo zera novamente, não é? sejamos todos cretinos ou não, somos todos iguais, dessa parte é a que mais gostei.

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  2. Caro anonimo. Eis o jogo: entrar ou não entrar nele, semear insultos e ódio, desfazer amizades, apenas para deturpar o óbvio, é de livre escolha. Somos todos cretinos? De certa forma, sim. O problema é não transformar nossa cretinice num estado de espírito. O bom humor é uma forma suportável de não nos deixarmos abater, nem pela nossa, nem pela cretinice alheia. A divergência salutar, aquela que não tenta nos oprimir, é sempre bem vinda.

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