quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A BORRACHA JÁ SE FOI; O MINÉRIO, DAQUI A 60 ANOS. E DEPOIS?

A industrialização da borracha trouxe progresso ao Pará. Depois, veio a decadência
Hoje, o minério sustenta a pauta de exportações paraenses. A quem ele beneficia?
Nos últimos 160 anos, o Pará experimentou vários ciclos de desenvolvimento, mas nenhum deles se compara à mineração. Ela é a de maior longevidade. Até porque o exaurimento da exploração mineral, se tudo correr como a Vale planeja para o sudeste do Estado, terá fechado seu ciclo por volta de 2075, com o ferro. Perto de 90 anos ininterruptos de exploração. Para entender as tantas fases que passamos, da prosperidade à decadência, é preciso revirar a história. 
 
O ciclo de exploração da borracha, por exemplo, que trouxe prosperidade para o Estado, sobretudo para Belém, durou de 1850 a 1920. Na capital, onde o dinheiro da borracha circulava fácil e generoso, atracavam navios abarrotados de queijos franceses, vinhos portugueses, vestidos italianos e serviçais europeus – como as costureiras belgas. Os ricos mandavam engomar suas roupas em lavanderias de Lisboa, em Portugal, além de importar patins que seriam usados em suas férias em países europeus. A força de trabalho dos seringueiros, enfurnados nas florestas para a extração do látex, era a responsável por essa prosperidade.

Pelo porto da cidade, a produção era escoada para o mercado mundial. Financiadoras de crédito, exportadoras, bancos ingleses e americanos, até uma Bolsa de Valores, surgiram em Belém, que nessa época, com seus pouco mais de 300 mil habitantes, tinha população menor que a Parauapebas de hoje. A elite paraense decidiu que Belém seria a Paris dos trópicos e fez com que a cidade se parecesse com a capital francesa, ao menos nas ruas que foram alargadas e nos prédios arquitetônicos suntuosos construídos.

Como hoje, no ciclo da mineração, o da borracha atraia muitos brasileiros, principalmente do Nordeste. Gente que fugia da seca e virou mão de obra barata na cidade e no interior das matas, para onde a maioria foi mandada para extrair o látex. Entre 1910 e 1920, porém, veio o declínio. Em 1913, enquanto o Brasil exportava 39 mil toneladas de látex, a Ásia, para onde sementes da planta haviam sido contrabandeadas da Amazônia, em 1876, pelo botânico inglês, Henry Wickhman, superava os brasileiros, exportando 47 mil toneladas.

A seringa asiática, de melhor qualidade e menor custo representou um duro golpe para o Brasil. O quase monopólio da borracha, que o país detinha, desmoronou. Belém estagnou seu desenvolvimento. Empresas fecharam as portas e os bancos estrangeiros deixaram a capital. Ela só iria iniciar sua recuperação já no final dos anos 50, com a abertura da rodovia Belém-Brasília, no governo de Juscelino Kubitschek.

A partir daí, com os incentivos fiscais da Sudam e a construção da Transamazônica, houve uma oxigenação econômica, ampliada de maneira considerável pela exportação do minério de ferro, no começo da segunda metade da década de 80.

De acordo com o Sumário Mineral do Pará estão em terras paraenses 80% das reservas nacionais de bauxita, 77% das de cobre, 43% das de caulim, 36% das de manganês e 14,8% das de ouro. O estado é ainda o maior produtor de minério de ferro do país, depois de Minas Gerais. Nos próximos cinco anos, ele deve superar Minas, com a exploração do projeto S11D, da Vale, em Canaã dos Carajás.

A pergunta que se impõe: daqui a 60 anos, quando a mineração tiver acabado nas regiões de Parauapebas, Marabá, Curionópolis, Canaã dos Carajás e Ourilândia do Norte, o que restará dessas cidades que hoje usufruem dos royalties pagos pela Vale e suas subsidiárias como compensação pelos impactos ambientais e sociais que deixarão suas marcas na geografia, inclusive a humana, desses lugares?

Quem responde?

__________________BASTIDORES_____________________

*Os índios xicrins continuam inquietos, cobrando da Vale o pagamento de compensações pelo impacto da mineração em suas terras. Eles reclamam de atraso, mas a Vale diz estar em dia.

* Um cacique xicrin mostrou ao Correio que a Vale, de fato, está atrasada. Isso já deu problemas para a empresa, no portão de entrada da Serra dos Carajás, com protesto dos índios. A Funai estaria empenhada em encontrar uma solução para que os índios recebam o que lhes é de direito.

* A polícia deve prorrogar o inquérito que apura matança de 70 bois numa das fazendas do grupo Santa Bárbara, a 30 quilômetros de Marabá. Em outubro passado, homens armados invadiram o local, saquearam casas e mataram os animais, a maioria vacas.

Um comentário:

  1. ...Sem uma política sócio-econômica responsável e sem alternativa para uma economia alternativa e de sustentabilidade, o que se vê é ainda a ganância e o individualismo. O espírito divisionista de quem veio pro Estado enriqueceu e continua espoliando os trabalhadores, a Vale no meio desse contexto.
    Talvez sobre uma grande área semi-árida, pronta para se instalar um dos maiores desertos da América Latina.

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