sábado, 21 de novembro de 2015

UM ORGASMO SURPREENDENTE


Oswaldo Coimbra *

“Basta olhar para ela para saber que ela goza!”, afirma com convicção o primeiro homem sobre a mulher recoberta de panos da qual se vê apenas o rosto. Ao observá-la, um segundo homem garante: o prazer sexual dela se expande em “ondulações gozosas irreprimíveis” até pelas dobras de seus panos. Inicia-se, então, uma sequência estonteante de surpresas sobre aquela mulher. A partir da identificação dos dois homens.

O primeiro é ninguém menos que Jacques-Marie Émile Lacan, uma das maiores autoridades da História da Psicologia. O segundo, George Bataille, um especialista em Erotismo e Transgressão, com obras admiradas por filósofos, antropólogos, sociólogos e historiadores das Artes.

Outras surpresas virão. Maiores. A mulher, na verdade, é uma santa. Teresa D´Ávila. Fielmente reproduzida numa escultura, com base numa autodescrição dela, feita cerca de 70 anos antes – em 1567 -, no capítulo 29 de sua autobiografia “Livro da Vida”. Nele, Teresa se mostra interagindo com um querubim:

“O anjo tinha na mão um dardo de ouro, de ponta grande, parecendo-me manter na extremidade um pouco de fogo. Tive a impressão de que o cravara diversas vezes em meu coração. E que, sempre que o tirava, com ele saíam as minhas entranhas. Deixando-me num tão intenso amor a Deus, que a violência deste fogo me fazia gritar. E os meus gritos eram misturados de tão extremo gozo, que não podia desejar-me livre de tão agradável dor”.

Esculpida por Gian Lorenzo Bernini, a escultura “O êxtase de Santa Teresa” foi instalada num nicho da Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma, Itália.

Quando a conheceu, Raquel Elisabeth Pires, professora de Psiquiatria de São Paulo, registrou: “Saltou-me os olhos a exuberância do erotismo ali presente... Há uma explosão de sensualidade... Chama a atenção a languidez do corpo da santa, os movimentos serpenteantes de seu traje, bem como a expressão facial de êxtase, desfalecimento e exaustão”.

Ela adiantou: “Seus olhos fechados acentuam ainda mais a manifestação de prazer orgástico”.

Esta análise da obra de Bernini feita por Raquel se tornou uma experiência perturbadora. “Na ocasião, fui arrebatada por um caleidoscópio de emoções, com profunda mobilização emocional”, ela escreveu. Mas foi nesta experiência que a professora de Psiquiatria parece ter encontrado forças para desafiar um grande mestre, Sigmund Freud.

Como é sabido, o criador da Psicanálise via a religião como uma neurose coletiva. E a neurose, como uma religião particular. Em contraposição a ele, Raquel sustentou a possibilidade de existirem dimensões não patológicas nas religiões. A demonstração disto estaria exatamente na vivência de um êxtase místico, como a obtida por Teresa D´Ávila. Nesta situação, segundo Raquel, ocorre “uma experiência interior que arrebata o sujeito”. Algo que é expresso, “com dramaticidade, através do corpo”.

Raquel prossegue: “É uma ocorrência involuntária ao sujeito que a experimenta, sem participação da racionalidade”. Realmente vivida, a experiência “transforma a percepção e o nível de consciência”. E é marcada pela natureza integradora de uma “religião”, expressa na palavra “religare”, de origem latina, da qual esta expressão derivou, que significava, originalmente, “reatar, ou, unir de novo”.

De fato, conclui Raquel, quem experimenta o êxtase místico se projeta para fora de seu centro, entra em fusão com “o brilho do objeto que o ilumina”. Com isto, o sentimento religioso “pode propiciar a integração de aspectos dissociados dentro do psiquismo humano”. Uma integração terapêutica - para Raquel, a janela de sanidade no quadro de morbidez psíquica em que Freud coloca a religião.

O texto de Raquel - “Erotismo e Religião: um diálogo instigante” - está publicado na Revista Brasileira de Psicanálise, numa edição de 2007. A manifestação de Lacan encontra-se em “El seminário. Libro 20 Aun” (Barcelona, 1972). E, a de Bataille, em “O Erotismo”, publicado pela Arx (São Paulo, 2004).

Passaram-se duas décadas, desde que Bernini criou a obra examinada por estes três autores. E o artista esculpiu a “Beata Ludovica Albertoni”. Na nova escultura, atualmente instalada na Igreja de San Francesco a Ripa, também em Roma, Bernini fez explodir um orgasmo ainda mais intenso.

*Oswaldo Coimbra é jornalista e escritor

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