VER-O-FATO: O HOMEM MAL-AMADO, VISTO POR KEHL

sábado, 28 de novembro de 2015

O HOMEM MAL-AMADO, VISTO POR KEHL

 

Oswaldo Coimbra*
 
Dez Maracanãs seriam necessários para acomodar todo o antigo público da Playboy, naqueles anos de 1990. Maciçamente masculino, e, com gosto por mulheres nuas, publicadas no meio de contos, entrevistas e reportagem de alta qualidade. Cerca de um milhão e seiscentos mil leitores, nas mãos dos quais circulavam os 400 mil exemplares da tiragem mensal da revista.
 
Pela primeira vez aquele gigantesco público iria se defrontar com a identificação, dentro das páginas da revista, do macho brasileiro marcado por uma maldição: a de ser mal-amado. Eternamente incapaz de despertar amor nas mulheres que ama.
 
Para a quebra daquele tabu, Playboy escalou uma profissional do primeiro time da Psicanálise em São Paulo: Maria Rita Kehl, a diva por quem sonhavam os jovens psicanalistas da Avenida Paulista.
 
Com o texto dela, Playboy ia ganhar vocabulário afiado, preciso e atrevido na expressão de uma crueza visceral, como a de Bukowsky, ícone da marginalidade iconoclasta americana. Anos antes, Kehl havia escolhido o seguinte título para seu livro de poesias: “O amor é uma droga pesada”.
 
Para Playboy, ela preparou o artigo “Amantes mal-amados”. Abriu-o com um alerta aos leitores: o amor é injusto e contraria o bom senso. Depois, ela repetiria isto várias vezes.
 
No primeiro rol de mal-amados, Kehl pôs os homens inseguros, com medo de se mostrarem tais como são. Pois, - admitiu -, os que sabiam confessar sua insegurança com charme não ficavam sozinhos.
 
Outro magote: o dos fissurados. Mulheres não suportam “caçador faminto, sôfrego, babão”, ela escreveu. Os que estão loucos para arrumar uma fêmea despertam a suspeita nelas de que alguma coisa deve estar errada com eles. Neste trecho, ela lembrou a frase do psicanalista argentino Ricardo Goldenberg: “Ninguém te quer quando você está em liquidação”.
 
Não que as mulheres não fossem generosas. Elas eram. De um modo que os homens estavam longe de corresponder. Mas exclusivamente no que se referia à aceitação de seus aspectos físicos e intelectuais.
 
Ela escreveu: “Não pensem que são os feios, os gordos, os baixinhos, os idosos que compõem a fileira dos mal-amados”. As mulheres “aprenderam, de mãe para filha, há muitas gerações que os homens bonitos não são confiáveis”. Intuitivamente, acatam o que pregava o poeta surrealista romeno: “Os homens bonitos não são feitos para o amor”. “No amor o que conta são outros talentos”, completou Kehl.
 
Quanto aos dotes intelectuais – ela continuou -, “infelizmente, é verdade, muitas mulheres podem se apaixonar loucamente por grandes idiotas, desde que eles não saibam que são idiotas”.
 
A última fileira de amaldiçoados foi reservada para homens casados. Neste caso, mais uma vez, ficava contrariado o senso comum. Pois, ao contrário do que se imaginava - sustentou Kehl -, os mal-amados não eram maridos canalhas, cafajestes, brutos, adúlteros. Um homem destes podia enfurecer sua mulher. Levá-la até a ameaçar “se atirar pela janela de infelicidade”. Sem que, no entanto, ela deixasse de sentir fascínio secreto por ele.
 
O casado mal-amado era outro homem. Injustiçado. Kehl identificou-o como o sujeito esforçado malsucedido; trabalhador honesto que dava duro, mas não conseguia sair do lugar; empregado dedicado e mal pago.
 
Depois disto, a pá de cal no que pudesse restar de amor próprio nos mal-amados. Kehl reveou: eram eles mesmos que, muitas vezes, procuravam “a mulher certa para fazê-los (in)felizes”. Uma mulher, segundo ela, com comportamentos típicos. “A enjoadinha de nariz torcido. A que nunca está satisfeita. A distante suspirosa, de olhar sonhador - sempre pensando em outra coisa que ele arde por saber o que é. A gostosa que não gosta de sexo, ou pelo menos dá a entender que não gosta com ele. A misteriosa que não abre o jogo nunca”.
 
Com mulheres deste tipo - ela concluiu – “os homens com vocação para mal-amados realizam prodígios de paixão”.
Acabou a fase áurea da circulação de Playboy com a crise provocada na produção jornalística impressa pela internet. Sua tiragem, cada vez mais minguada, levou-a à extinção, há pouco.
 
Um quarto de século transcorreu, desde a veiculação do texto de Kehl.
 
Hoje, possivelmente, alguns dos perfis humanos esboçados por ela fossem revistos. Quem sabe, o marido “esforçado malsucedido” conseguisse, atualmente, entrar num curso técnico ou numa faculdade, através de algum programa social. E, assim, ficasse mais interessante aos olhos de sua mulher. E um marido bruto e cafajeste, agora, se contivesse para não acabar numa Delegacia da Mulher.
 
Nada disto, porém, teria alterado o amor. Ainda permanece injusto, com frequência. E em desarmonia com o bom senso. Quase sempre. Felizmente. Talvez.

*Oswaldo Coimbra é jornalista e escritor

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