VER-O-FATO: NA MANSÃO BRANCA, O ARTISTA DA PAZ

sábado, 14 de novembro de 2015

NA MANSÃO BRANCA, O ARTISTA DA PAZ


Oswaldo Coimbra *
(Ouverture)
 
A história de uma pessoa avança não só através de suas ações. Também por meio daquilo que ela diz. Pois falar é uma forma de agir. E, mais importante, o que é dito desnuda quem fala. Deixa à mostra sua personalidade e sua formação. O que busca na vida.
(Choeur)
 
Na mansão branca de Ascot, Inglaterra, John Lennon apresentou “Imagine”, seu hino de harmonia entre os homens, sentado diante de um piano igualmente branco. Na sala de visita oval, sem móveis. Muitas portas que, no vídeo da música, Yoko abre, uma a uma, até dar-nos a impressão de ver Lennon e o piano no jardim. Era o início dos turbulentos anos de 1970, ainda sem ódio jihadista, mas já com intervenções arrogantes norte-americanas, desestabilizadoras da paz em outras regiões do mundo.
 
A câmera caseira grava a voz de Yoko, naquela manhã. Ela diz que não há muita segurança na mansão. E, avisa, um rapaz desconhecido tinha passado a noite no jardim. Vemos, então, Lennon - óculos redondos, costeletas, camisa de manga comprida -, na porta de entrada da mansão, cercado de assistentes. 

Diante dele, o rapaz desconhecido - um Nazareno, com casaco militar de brechó. Branco, olhos claros, cabelos compridos, barbas longas. Entre os dois, uma atmosfera amorosa. Tipicamente hippie. Lennon dedica-se com afinco a uma tarefa: combater seu endeusamento. O rapaz, no entanto, o olha com adoração.
 
Lennon: - Não confunda as músicas com a sua vida. Elas podem ser importantes, mas outras coisas também são. Então, nos conhecemos! Sou um cara que faz música.
Rapaz: - Achei que se te conhecesse saberia só de te ver.
Lennon: - Saberia o quê?
Rapaz: - Que tudo se harmoniza.
Lennon: - Tudo se harmoniza se você está ‘viajando’. Qualquer coisa se harmoniza.
Rapaz: - Lembra quando disse: ‘Cara, você vai ter que carregar este peso’.
Lennon: - Paul cantou isso. (‘Carry that weight’). Mas ele está falando de todos nós.
Rapaz: - Lembra: ‘Você irradia tudo o que é e penetra aonde vai’. (‘Dig a pony’)
Lennon: - Era um jogo de palavras. Dylan faz isso. Todo mundo faz. Pegam-se palavras, juntam-se e vê-se se tem algum sentido.
Rapaz: - Você pensa em alguém em especial, quando canta?
Lennon: - Como poderia pensar em você?
Rapaz: - Bem. Não eu. Sei lá. Alguém.
Lennon: - Penso em mim ou em Yoko, se é uma canção de amor. Ou penso: ‘Hoje caguei legal’. Ou: ‘Eu te amo, Yoko’. Sei lá. Canto sobre a minha vida. Se é importante para a vida dos outros, ótimo.
(Depois, registra a expressão do rosto do rapaz e muda de tom) - Está com fome? (Dirige-se aos assistentes) - Vamos dar comida a ele.
Todos entram na mansão. Na cena seguinte, todos à mesa. O rapaz, sem o casaco, toma café com pão. O olhar sonolento. Ao fundo, ‘Jealous guy’, de Lennon: ‘Eu estava tentando chamar sua atenção. Pensei que você estava tentando se esconder. Eu estava engolindo minha dor’.

*Oswaldo Coimbra é jornalista e escritor

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