VER-O-FATO: FANTASMAS DE BOIS MORTOS EM BARCARENA ASSUSTAM JATENE

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

FANTASMAS DE BOIS MORTOS EM BARCARENA ASSUSTAM JATENE

O governador Simão Jatene é pressionado pelos barões do gado

O que ocorreu em Vila do Conde não foi acidente, foi irresponsabilidade

Enquanto cerca de 4.600 bois ainda apodrecem no fundo do rio Pará, em Vila do Conde, uma queda de braço silenciosa, entre exportadores de gado vivo e donos de frigoríficos, desembarca no gabinete do governador Simão Jatene, fazendo muito barulho. A questão é a seguinte: a exportação de boi em pé, após a tragédia social e ambiental que se abateu sobre Barcarena, desde o dia 6 de outubro passado, deve continuar ou ser suspensa de vez? O governador consulta seus assessores, mas também deveria responder a uma segunda pergunta: quem ganha com essa exportação, o povo do Pará ou meia dúzia de empresários?

Jatene é pressionado pelos exportadores de gado em pé a reabrir o porto de Vila do Conde. Eles alegam estar sofrendo enormes prejuízos com a suspensão da atividade até que o navio Haidar seja retirado do fundo do rio, as carcaças dos animais enterradas ou cremadas, e as vendas retomadas. Para quem diz em nota oficial paga nos jornais "O Liberal" e "Diário do Pará", ter gerado para o Estado, em 2014, R$ 2,5 bilhões em divisas, a tragédia de famílias sem poder entrar em suas casas devido ao mau cheiro insuportável, a contaminação das praias por animais em decomposição, a perda de faturamento de quem vendia produtos para turistas, pouco importa.

O que vale, para os empresários, são os "prejuízos" e a perda de receita. O leite derramado são mais de 200 mil bois vivos que não puderam ser embarcados no pós-tragédia. A questão social, para esses exportadores, não passa de um detalhe a atrapalhar seus negócios. Não interessa se famílias perderam renda ou trabalho, se mal conseguiam respirar devido ao odor fétido de animais apodrecidos. Tampouco se preocupam com as condições em que seus bois são transportados, por estradas assassinas, confinados em caminhões, sem água e alimentação, sob sol abrasador por horas, enquanto aguardam o momento de esses caminhões terem acesso ao porto para embarque em navios que irão cruzar o mundo até que a "encomenda" seja entregue à clientela. 

"A exportação de gado vivo é extremamente importante para a geração de empregos e de riquezas para a economia paraense", diz a nota da Associação Brasileira de Exportadores de Gado (ABEG) publicada domingo passado nos jornais de Belém, enfatizando que o setor é o segundo item da pauta de comércio exterior do Pará, ficando atrás apenas das exportações de minérios. 

Se a nota não esconde uma hipocrisia colossal, atribuindo ao Estado uma arrecadação que daria para resolver inúmeros problemas enfrentados diariamente pela população nas áreas de saúde, segurança e educação, seria bom que o governador viesse a público, rompesse seu silêncio sobre a tragédia, para esclarecer quantos empregos são gerados no Estado com a exportação de boi vivo e onde é aplicado o dinheiro.

O que se sabe, na verdade, é que o setor goza de isenções que não se justificariam numa atividade questionável, que impõe crueldade no transporte de milhares de bois pelos oceanos até mercados distantes, como Líbano e Egito, além de deficiente fiscalização pelos órgãos responsáveis, como ficou constatado após o naufrágio do navio Haidar no porto de Vila do Conde. A Companhia Docas do Pará (CDP), administradora do porto, por exemplo, literalmente ficou a ver navio - indo para o fundo. Agora, arca com a responsabilidade por doações de cestas básicas e quejandos.

Na queda de braço com os exportadores de boi em pé, os proprietários de frigoríficos metem corda no governador para que as atividades do porto de Vila do Conde, no transporte de gado, continuem suspensas ou até que nunca mais voltem a ocorrer. Obviamente, querem que a concorrência se dane. Quem mais batalha por isso é a União das Indústrias Exportadoras de Carne do Estado do Pará (Uniec), que tem como presidente o ex-deputado Francisco Victer, para quem o crescimento de 30% em relação ao ano passado da exportação de gado vivo estaria prejudicando a indústria frigorífica local.

A turma do boi vivo rebate, afirmando que sua atividade não prejudica a exportação de carne, nem no Brasil, nem na Irlanda, nem na Austrália. A ABEG puxa a brasa para sua sardinha e  garante que a exportação de boi vivo é um nicho, que sempre existirá, independente de o comércio de carne estar ou não aquecido. “O boi vivo não concorre com a carne: são mercados diferentes. Um não exclui o outro. Mesmo se parasse a exportação de gado em pé, a exportação de carne não aumentaria um quilo sequer”, assegura a entidade.

Resumo do embate: Simão Jatene terá que encarnar o espírito de um juiz de paz, para não ficar mal na foto, nem com um lado, nem com o outro. Isto sem falar no povo de Barcarena, que até agora lamenta não ter ouvido um murmúrio sequer do governador. 

É hora de falar. Ou calar-se  de vez. E assumir as consequências. Os "fantasmas" dos bois mortos em Barcarena estão cobrando essa fatura social e ambiental dos governos - federal e estadual - e  dos empresários que só pensam em euros e dólares. 

 

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