domingo, 15 de novembro de 2015

AS BARRAGENS DA VALE EM CARAJÁS SÃO SEGURAS? (2)

Os medidores de vazão de uma das barragens da Vale no Pará
A barragem Pêra Jusante, em Carajás, tem 27 metros de altura

Em Carajás, no sudeste do Pará, assim como em todos os seus projetos de mineração, a Vale utiliza dois sistemas de gerenciamento de barragens: o Geobarragem, Sistema de Gestão Operacional de Barragem, que cadastra a rotina diária da operação, manutenção e monitoramento da barragem; e o SGBP (Sistema de Gestão de Barragem e Pilhas de estéril, mais robusto, que concentra todas as informações, desde a seleção do empreendimento até a sua desativação.

O sistema Geobarragem foi desenvolvido para a Vale pela Geoexplore, empresa fornecedora de mão de obra e tecnologia – que contempla a implantação de um sistema de informações georreferenciadas (SIG) para suporte da gestão geotécnica das barragens de rejeitos, sedimentos e água das minas de ferro da Serra de Carajás. O trabalho teve como base de referência o projeto piloto executado pela Diretoria de Ferrosos Norte, da Vale.

Em sua dissertação de mestrado profissional em Engenharia Geotécnica da Universidade de Ouro Preto (UFOP), apresentada em julho do ano passado, José Carlos de Oliveira explica que no beneficiamento de minérios o mineral bruto é dividido em concentrado e em rejeito. A polpa sem valor econômico será o rejeito no sistema de armazenamento e, para sua contenção, diques ou barragens podem ser construídas. "As barragens convencionais utilizam materiais da própria jazida para suas construções. Os reservatórios de rejeitos, por vezes, são usados como reservatórios da água consumida nas próprias plantas de beneficiamento, o que requer cuidados ainda maiores em seu gerenciamento", observa.

O termo barragem de rejeitos é utilizado de uma forma ampla para englobar as estruturas de disposição de rejeitos em geral onde pode figurar mais de uma barragem de rejeitos, de água, ou até um sistema de barragens, embora a diferença entre barragem de rejeitos – associado a um aterro artificial para conter rejeitos – e uma área para acumulação de rejeitos seja relevante, já que se trata de uma área onde ocorre confinamento de rejeitos.

"O beneficiamento de minérios nas usinas de tratamento resulta na produção de enormes quantidades de resíduos sólidos, em geral inertes, porém em alguns casos deletérios em razão da composição química dos minerais presentes. A liberação destes materiais ao meio ambiente, sem o devido controle, resultaria em danos inaceitáveis à economia e ao meio físico, tais como assoreamentos de baixadas, destruição da mata ciliar, contaminação da água e do solo, entre outros danos", salienta Oliveira. Ele esteve em Carajás para aprofundar seu trabalho e verificou cada uma das cinco barragens da Vale.

Para Oliveira, o tema segurança de barragens deve ser abordado em um contexto mais amplo, com uma "visão holística sobre o cenário socioambiental, por vezes desconsiderado pelos construtores de obras hidráulicas". O que ele diz é atestado pela World Commission on Dams, a Comissão Mundial de Barragens, quando afirma que incontáveis obras foram construídas sem qualquer avaliação abrangente do ponto de vista dos critérios sociais e ambientais.

Direitos Humanos 
Ainda que existam muitas opiniões críticas sobre os direitos humanos básicos, eles se fazem presentes em quaisquer discussões, em nível mundial. Parte-se do pressuposto, portanto, que a segurança de barragem é um assunto que deva seguir tais discussões estabelecidas desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada em 1947, até os "Princípios do Rio de Janeiro", indicados na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992.

A gestão do gerenciamento da segurança de barragens de terra, continua Oliveira em sua dissertação de mestrado, constitui um motivo de preocupação para a sociedade, devido aos riscos potenciais a que ficam sujeitas as pessoas e bens instalados nos vales a jusante face à possibilidade, às vezes remota, de ocorrência de rupturas dessas obras. "O processo natural de envelhecimento das obras ou a da tendência, frequentemente verificada, de ocupação dos vales a jusante das barragens, bem como o aumento da percepção dos riscos associados a este tipo de estrutura, conduzem a maiores exigências de segurança de barragens".

Estas, salienta Oliveira, se traduzem, nomeadamente, pelo estabelecimento e cumprimento da legislação e de normas de operação e de programas de inspeção, observação, auscultação (monitoração), manutenção e auditorias internas e externas. E mais: a segurança de uma barragem está intimamente relacionada aos aspectos de projeto, construção, instrumentação/inspeção, operação e manutenção.

É claro que, por melhores que tenham sido o projeto de uma barragem e a fiscalização de sua construção só será possível exercer um eficiente controle das condições de segurança da barragem se a mesma estiver sendo adequadamente inspecionada e monitorada através de instrumentação apropriada, operada por equipe treinada. 
Durante a vida útil da barragem, são necessárias obras periódicas de manutenção com a finalidade de preservar em bom estado as várias estruturas, assegurar superfícies hidráulicas satisfatórias e garantir a operacionalidade dos equipamentos eletromecânicos e dos instrumentos de auscultação.

As barragens da Vale no Pará- tamanho e volume


Barragem Gelado


Construída em 1983, a Barragem do Gelado tem uma altura máxima de 34 metros, a área de seu reservatório ocupa 482 hectares e volume de 30 milhões de metros cúbicos. Ela capta 2.257 metros cúbicos por hora. Essa barragem foi concebida para atender a regularização das vazões para abastecimento de água na usina de beneficiamento de minério de ferro e a contenção de rejeitos e sedimentos da Pilha Norte.

Barragem Geladinho


Essa barragem foi concebida para atender múltiplas finalidades, sendo elas a acumulação de rejeito de minério proveniente das instalações industriais da Mina de Ferro, a regularização das vazões e o controle de enchentes com vista na proteção dos terrenos situados a jusante da área pertencente à Vale. A Geladinho foi construída em 1995 e possui 24 metros de altura máxima. A área do reservatório ocupa 24,4 hectares, enquanto o volume, 508 mil metros cúbicos.

Barragem Estéril Sul


Ela foi construída para atender múltiplas finalidades, sendo ela responsável pela regularização das vazões para o abastecimento de águas do núcleo habitacional e pela contenção de sedimentos provenientes da pilha de estéril localizada nas cabeceiras da bacia hidráulica. Atualmente conta com um sistema de bombeamento para a área industrial. Ela foi construída em 1982 e tem altura máxima de 25 metros, além de capacidade para 433 mil metros cúbicos de líquidos.

Barragem Pêra Montante

Construída em 2006, tem como finalidade a contenção de sedimentos provenientes das pilhas de estéril da Mina N5W. Essa barragem deve atuar de tal forma que impeça estes sedimentos de ocuparem o reservatório da Barragem Pêra Jusante, que por sua vez possui um sistema de captação de água. Sua altura máxima atinge 27 metros. A área do reservatório ocupa 3,9 hectares e seu volume, 172 mil metros cúbicos.

Barragem Pêra Jusante


A Barragem Pêra Jusante tem como finalidade a contenção de sedimentos provenientes das pilhas de estéril da Mina N5W, impedindo que estes sedimentos ocupem o reservatório dessa barragem, a qual possui um sistema de captação de água. Também foi construída em 2006 e possui altura máxima de 27 metros. O reservatório ocupa área de 30 hectares e seu volume, 3,8 milhões de metros cúbicos.



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