sábado, 14 de novembro de 2015

AS BARRAGENS DA VALE EM CARAJÁS SÃO SEGURAS ? (1)

Gelado e Geladinho, as duas maiores barragens da Vale no Pará

Aspecto mais detalhado da  barragem do Gelado, em Carajás: em volta, a floresta
A catástrofe ocorrida em Mariana (MG) - rompimento de uma barragem de rejeitos de minério de ferro das empresas Vale e BHP Billiton, controladoras da Samarco – acendeu o alerta sobre as condições em que encontram pelo menos cinco grandes barragens da Vale na região de Carajás, sudeste do Pará. As populações que vivem nas cidades e vilarejos próximos dessas barragens têm o direito e precisam saber qual o nível de segurança que elas têm de que não seriam vítimas de uma tragédia igual ou muito pior à de Mariana, com suas consequências sociais e ambientais.

O blog Ver-o-Fato sabe que a grande imprensa jamais irá publicar qualquer coisa, uma nota de rodapé que seja, capaz de questionar a Vale sobre seus projetos e suas consequências sociais e ambientais para o nosso Estado. Afinal, a Vale sustenta grupos de comunicação com gordas verbas publicitárias, além de patrocinar eventos retratados na mídia de Belém como grande feito de benemerência e apoio cultural. A empresa não dá bola para os jornais e TVs locais e age com a soberba de sempre, de acordo com suas conveniências. Não se sente obrigada a dar satisfações de seus atos.

A imprensa, convenhamos, é quem precisa mudar sua forma de se relacionar com a Vale para merecer credibilidade de seus leitores, ouvintes e telespectadores. Sabemos que mexer com a Vale, ainda que seja para fazer bom jornalismo, apurando eventual denúncia contra ela e a ouvindo, é carimbar jejum de verbas publicitárias nos veículos de comunicação por tempo indeterminado, sujeitando sua suspensão ao humor de diretorias da empresa ou ao bom comportamento dos patrões da mídia.

Quem já ousou desafiá-la, ou chantageá-la, pagou caro por isso. É o poder exercido com mão de ferro sobre uma imprensa que sempre se manteve subserviente ao substituir a linha editorial pelo tilintar de moedas no caixa. Perde, com isso, quem está em busca de informações corretas e isentas.

Caso se sentisse na obrigação de prestar esclarecimentos à opinião pública e aos moradores do entorno de seus projetos minerais, seria um gesto de decência empresarial que a Vale viesse a público esclarecer como são mantidas suas barragens em terras paraenses e se há algum risco de repetir-se aqui, talvez em proporções incalculáveis, o que se abateu sobre Mariana.

O que está em jogo é a imagem da empresa, que sempre se gaba, em matérias divulgadas, de ser um exemplo no respeito às normas de segurança de seus projetos pelo mundo afora. O blog Ver-o-Fato rompeu o silêncio doloso da imprensa paraense sobre o assunto e procurou a Vale para que ela se posicionasse sobre as aflições de quem vive próximo de suas barragens na região de Carajás. Ela demorou um dia para responder, mas respondeu.

Menos mal. Melhor que calar e alimentar ainda mais dúvidas sobre boatos que correm pela região - um deles dá conta de que nos meses de muita chuva, ano passado, algumas dessas barragens estiveram em regime de "atenção" - de que seus planos de segurança não seriam tão eficazes como a empresa imagina para suas barragens localizadas nos municípios de Marabá, Parauapebas, Ourilândia do Norte, São Félix do Xingu e Canaã dos Carajás.

Barragens de rejeitos são estruturas que têm por finalidade reter resíduos sólidos e água oriundos do processo de beneficiamento de minério. Os rejeitos apresentam na sua composição partículas dissolvidas e em suspensão, além de metais pesados e reagentes químicos. Gelado, Geladinho, Estéril Sul, Pêra Montante e Pêra Jusante são os nomes das cinco barragens da Vale no sul e sudeste do Pará que recebem rejeitos de minérios de ferro, cobre e níquel.

“Neste momento, todas as nossas estruturas estão funcionando em absoluta normalidade, atendendo a todos os requisitos legais vigentes e com todos os aspectos de segurança garantidos”, afirma a Vale ao responder a uma das perguntas feitas pelo blog Ver-o-Fato. Ela diz que, além de “inspeções e monitoramento sistemáticos”, a empresa realiza “auditorias externas anuais para identificação de anomalias e garantia das condições de segurança”.

Falhas podem custar caro
Segundo dissertação de mestrado profissional em Engenharia Geotécnica da Universidade de Ouro Preto (UFOP), apresentada em julho do ano passado por José Carlos de Oliveira e disponível na Internet, as principais consequências de acidentes com barragem são as seguintes: segurança das pessoas, redução de reservas, impactos econômicos, impactos ambientais, impactos sobre a comunidade e imagem da organização. As falhas têm sempre um custo alto, sendo que os custos diretos de um incidente de barragem são em média de US$ 70 a 150 milhões. Os custos globais à organização e acionistas podem, por vezes, ser maior, de tal forma que as barragens de rejeitos comportam riscos ao negócio que devem ser geridos com cautela.

"Se não forem seguidas as normas, diretrizes e legislação, os custos para consertar as eventuais anomalias poderão ser muito elevados, ou seja, antes de construir uma barragem deve-se fazer um reconhecimento adequado do local, investigações geológicas, topografia, programar sondagens e ensaios, fazer análise dos resultados, consultar especialistas para dar sugestões na execução do projeto e ter boas especificações técnicas, recomenda Oliveira, que esteve em Carajás e verificou as condições das barragens da Vale no Pará.

Um comentário:

  1. Caro Mendes,
    Volto a parabenizá-lo pelas postagens do seu blog. Este, nada mais oportuno. O primeiro no Pará a dar com texto e fotos as imagens das nossas barragens que ainda não ruíram. É, digo isso pois as barragens andam ruindo em Minas e aqui no Pará, a Imerys nos brindou com um derrame de caulim que chegou até Barcarena. Aqui, em Parauapebas, temos a barragem com o melechete mais ácido do mundo. Aquela que retém os resíduos do cobre,cujo concentrado é extraído com a adição de ácido no minério lavrado. Caso, amigo repórter, uma barragem destas do Salobo ruir, vamos matar o rio Parauapebas, tributário do Itacaiúnas que desemboca no Tocantins,alí no bairro do Cabelo Seco, em Marabá. São décadas de acumulação à montante desta bacia hidrográfica. Temos uma espada de Dâmocles sobre nossas cabeças. Uma macrofauna fluvial e uma macrófita exuberante que ainda nem foi devidamente catalogada e nem estudada como deveria.Tudo isso, caríssimo jornalista, depois de Mariana, não esta devidamente à salvo. Outro dia, Carlos, participei de uma reunião do Conselho de Meio Ambiente de Parauapebas e ouvi o representante da Defesa Civil declarar com todas as letras que não conhece, por exemplo, a bacia de retenção do Salobo. E, se ela ruir, não há plano de contingenciamento nenhum a ser adotado, tanto aqui como no município de Marabá, a dona do Salobo. É apavorante, caro colega, mas a realidade é essa.
    Abraços,
    Agenor Garcia
    jornalista
    gestor ambiental.

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