VER-O-FATO: A OSGA DA SECOM

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A OSGA DA SECOM


Paulo Silber*

Tem uma osga habitando minha sala na Secom. Acho que é uma lagartixa velha. Tentei assustá-la e a bichinha nem se moveu. Ou ela me despreza (como me desprezava Rodolfo, o sapo do Médici, mas não quero falar disso agora) ou perdeu o viço. Osgas, como se sabe, costumam ser serelepes e prezam a aventura humana – digo, entomológica - de tal maneira, que até o rabo delas tem vida própria.

Tenho pelas osgas uma indisfarçada estima e creio que elas também me curtem. Ou não estariam no meu caminho volta e meia. Aqui em casa, eu crio um casal de osgas: a Olga e o Luiz Carlos. Eles são meio pervertidos. Outro dia, vi a Olga se insinuando tanto para o Luiz Carlos, que ele subiu pelas paredes. Oss!

Todo dia deixo na sacada uma tampinha de cerveja com três ou quatro carapanãs. Uma vez deixei uma aranha. A vida não é só feijão com arroz, né? Todo mundo merece um filé de vez em quando. Meia-noite eu abro a porta da sacada para o casal entrar. Temos praticamente um pacto: eu os alimento para que não passem fome; eles garantem que mosquito nenhum me come.

Se um dia houver mesmo a revolução dos bichos prevista no livro do George Orwell, nem sei... Olga e Luiz Carlos, afinal de contas,  são revolucionários natos. Seus nomes homenageiam Luiz Carlos Prestes e a mulher dele, Olga Benário, cujas vidas e sonhos se dissolveram nas fendas da intolerância.

Num tempo – página infeliz da nossa história, ferida acesa na memória – em que o ódio derrotou o amor.
Se a revolução dos bichos vier, de verdade e não na versão da Pixel, tenho esperança de ser poupado, dada minha relação praticamente bichoafetiva com meus afilhados insetívoros.

Mas se em vez da revolução deles vier aquilo que se prenuncia, um novo tempo de intolerância e ódio, vou acolhê-los aqui em casa. Eu haverei de convidá-los a entrar pra sempre e lhes darei o conforto da exceção, cantando toda noite, com a permissão de Tom Jobim e Dolores Duran, do jeito que a mamãe cantava pra mim:

Entre meu bem, por favor
Não deixe o mundo mau te levar outra vez
Me abrace simplesmente
Não fale, não lembre
Não chore meu bem
...

E a osga da Secom? Ah, aquela não vai durar muito. No reino animal, seja bicho homem ou bicho inseto, todo mundo morre.

Tirando o Sodré, é claro.

*Paulo Silber é jornalista

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