sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O SISTEMA ESTÁ DOENTE, ATUANDO NA LÓGICA DOS PSICÓTICOS. CHAMEM O DR. FREUD


O título original desse artigo - cuja leitura é imperdível até o final - é "Psicose". Ele foi publicado anteontem no jornal "O Estado de São Paulo". É da lavra do cientista político e professor universitário Carlos Melo. Um diagnóstico preciso da enfermidade que assola o país, nessa busca insaciável por cargos e ministérios no governo de Dilma. E desnuda, também, a face do PSDB. Boa leitura a todos

Psicose

Carlos Melo

A estas chamavam “doenças da alma”: a propensão autodestrutiva, o boicote interno, a fixação pelo erro, o vício da discórdia; o autismo, a visão auto-referenciada desconectada do mundo circundante, a traição atávica; a personalidade esquizofrênica, a indefinição angustiada do ser, o medo pânico do futuro. Também a dificuldade em ler o momento, a desatenção intransponível, a incompreensão da realidade, a incapacidade de aprender, a dislexia tática. Tudo transbordou do indivíduo e tomou o corpo coletivo da política. 

Governo, PMDB, PT, PSDB estão doentes; sua psicose ameaça o tecido social, já perturbado por tanta vertigem e desvario. Começando pelo governo. Em seu compromisso com o desastre, percebe-se na presidente da República o fascínio pelo perigo. Seu governo tem fixação pelo erro e atração pelo abismo. A reforma ministerial que ora se anuncia é apenas mais um exemplo: não altera e, antes, reafirma a rota permissiva e perniciosa do fisiologismo; talvez acredite que percorrendo mil vezes o mesmo trajeto, possa chegar a lugar diferente. Mas, não chegará mais a lugar algum, pois o caminho se esgotou.


A presidente Dilma Rousseff dispensa o pouco de excelência que havia no governo – Saúde e Educação — para abrigar o baixo clero do baixo clero. Acredita que, empilhando anões, possa construir um gigante. Cede a própria carne para quem tem fome insaciável. Aquinhoadas suas correntes, o mais provável é que o PMDB abandone a presidente na estrada, alguns quilômetros a frente; distante da chegada. 

À Dilma, mais valeria qualificar o ministério, buscar interlocução com a sociedade, o empresariado; deixar que pressionassem o Congresso. Mas, incorrigível, reluta e, ao mesmo tempo, rende-se. Sem admitir erros, entrega-se refém à chantagem, à agiotagem. Se é para cair, pior que seja de joelhos.


O PMDB, claro, dá vazão à índole do escorpião. As sinecuras da explanada valem menos que o Poder de verdade, questão de tempo, na sua lógica. Ao que tudo indica, os profissionais procrastinam o desenlace que já anteveem; sabem que Dilma fortalecida será a ruína dos partidos. Negociam espaços crescentes e generosos, mas na TV não há reciprocidade: explicitamente, querem “tirar o Brasil do vermelho”.


Trata-se de um partido dividido, mas auto-referenciado, caso particular de autismo político. No mundo do PMDB, não há vida sem o PMDB; nem anima política sem o seu bafo. Uma penca de ministérios, a vice-presidência, o controle da Câmara e do Senado… Nada parece bastar. Vírus oportunistas nunca se fartam.


E nada é mais revelador dessa psicose do que a filiação de Marta Suplicy. A escolha da senadora pelo partido de Sarney, Renan, Temer e Cunha revela mais do que oculta: o narcisismo da estrela não se contém, desde sempre encantado de si e jactante de uma apenas pretensa liderança. Ilusão e megalomania que desnudam o óbvio: não foi o apelo da ética que a afastou do PT, nem a pureza de princípios. 

O ressentimento juntou-se ao pragmatismo e juntos abraçaram o oportunismo: quando a água entra pelos porões do barco que aderna, é hora de pular e vislumbrar o bote, antes de todos; é a arte do náufrago. Prêmio Francesco Schettino — memorável capitão do Costa Concórdia – de comportamento político.


Mas, é verdade, no PT não há voz capaz de um sonoro e respeitável ”Vada a bordo, cazzo!”. Nem à Marta, nem a ninguém. Como conter os Schettinos se a própria legenda salta do Costa Concórdia do governo? Sem o sinal verde da direção, a fundação oficial do partido guardaria o momento e o método das críticas que faz à política econômica, calcanhar-de-aquiles, do governo. Não exploraria de forma tão pouco sutil a demência dos companheiros, no Executivo. O nobre Perseu Abramo teria mais elegância e consideração.


O Lulo-petismo vive, assim, a esquizofrenia de não admitir ser o que, de fato, é: o partido do governo e o governo do partido. Mesmo que Lula e Dilma tenham desprezado a burocracia partidária — e obtido a servidão por meio de vistas grossas que só viam névoa aonde havia a fumaça –, partido e governo são indissociáveis, ainda que neguem mutuamente. Dupla personalidade, confusão de sentimentos; o demônio reparte o indivíduo entre razão e coração.


Resta o PSDB. Pobre PSDB, que sofre de dislexia tática e não compreende o que se passa; que joga como “café-com-leite”; mirim, no jogo dos grandes. Na TV, revela a vertigem chique – mas, igualmente alucinante — dos tucanos: o óbvio de um denuncismo sem surpresas; o escamotear das verdadeiras intenções (o impeachment); a saída populista do ataque aos juros que, intimamente, já foram assimilados como inevitáveis. 

E, claro, o apoio à pauta bomba; é a negação de si. O sincericídio de Michel Temer traz mais estratégia que o insincericídio de Aécio. Ainda que tucanos dispersos esforcem-se na reconstrução psíquica do PSDB, sentado à beira do caminho, o partido é carona na desgraça e no maquiavelismo alheio.


Nesse turbilhão psicótico, o país ainda não precisa de líder — não está preparado para parir um; comprometeria, aliás, sua natureza. Sequer analistas às mancheias fazem diferença – a começar pelo ceticismo sensaborão deste texto. Tarja preta, o país necessita de um psiquiatra – não um qualquer; mas um psiquiatra de altíssima qualidade; doctor Freud.

Para Carlos Melo, o país está precisando de um psiquiatra




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