VER-O-FATO: Na tragédia de Barcarena, o lucro acima de tudo. E tem um vídeo da crueldade contra os animais

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Na tragédia de Barcarena, o lucro acima de tudo. E tem um vídeo da crueldade contra os animais


A tragédia animal e ambiental que se abateu sobre Barcarena, na manhã desta terça-feira, precisa ser investigada com isenção e rigor pelas autoridades portuárias. É claro que agora, enquanto bois mortos são retirados às centenas do rio Pará e se levantam várias possibilidades para as causas do grotesco acidente, explicações de todos os lados vão surgir, inclusive promessas da Capitania dos Portos e da Marinha de "apuração rigorosa". O que houve: imperícia, imprudência, excesso de carga? Respostas, só ao final do inquérito que já foi aberto.

Nada disso, contudo, vai apagar a causa maior da tragédia: a ambição cada vez maior por lucro nas exportações de bois vivos para a Venezuela e Líbano. Lucros, aliás, cada vez maiores, mesmo que as condições de transportes desses animais sejam cruéis e degradantes. Para isso, os agentes fiscalizadores fazem vistas grossas. Você verá aqui no blog um vídeo (abaixo), com 6 minutos de duração, mostrando como é feito o embarque de bois em Barcarena para os portos de Caracas e Beirute. É para quem tem nervos fortes assistir.

Mas, antes de assistir o impactante vídeo, é preciso que você que lê este blog saiba o que está ocorrendo em alguns portos do Pará. O ministro Helder Barbalho acaba de assumir o Ministério dos Portos e terá muito trabalho pela frente, como diz o jornal de sua família na edição de hoje. Se Helder quiser e tiver competência para fazer alguma coisa nesse ministério que caiu de para-quedas em suas mãos, terá que arregaçar as mangas imediatamente e esquecer a pirotecnia midiática.

Por exemplo, os portuários de Vila do Conde vem denunciando há tempos as más condições de trabalho em portos de Bacarena, Miramar e Outeiro, mas suas queixas e denúncias não são ouvidas pelas autoridades. No último dia 2, dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores Portuários do Pará e Amapá (Sindiporto) estiveram no Ministério Público do Trabalho (MPT) (veja a foto abaixo), em Belém, para reforçar a denúncia já feita no dia 8 de maio deste ano, sobre a terceirização da atividade de amarração, que é a atracação e desatracação de navios pela Companhia Docas do Pará (CDP).

Dirigentes do Sindiporto reforçaram denúncias ao procurador Sandoval Alves, do MPT
No MPT, os sindicalistas foram recebidos pelo procurador. Sandoval Alves da Silva, a quem entregaram documentos relacionados à terceirização de atividades fins na CDP em especifico a amarração de navios. Sandoval está à frente de um procedimento do MPT contra a CDP, que perdura desde 2003, onde o assunto terceirização é o foco.

Segundo informações dos sindicalistas ao blog Ver-o-Fato, a data da audiência onde os representantes da CDP terão que dar explicações a respeito das denuncias, já está marcada: será no próximo dia 26 de outubro, Desta vez, os dirigentes do Sindiporto estão confiantes que o desfecho seja o reconhecimento da atividade de amarração como atividade fim da CDP.

O trabalho de atração e desatracação de navios é muito importante e pode evitar, ou acelerar, uma tragédia como a ocorrida hoje no porto de Vila do Conde, desde que os profissionais envolvidos na atividade sejam bem treinados e possuam experiência na hora de agir.

Um vídeo chocante

A cada semana, milhares de bois e vacas são submetidos a uma jornada de três semanas desde o porto amazônico de Belém, no Brasil, até Beirute, no Líbano.  O gado é comprimido em caminhões sob o abrasador calor amazônico. Durante quatro dias são incapazes de se mover ou deitar e não recebem nem alimento nem água. Os que caem são esmagados ou feridos.

No navio, a utilização de ferrões elétricos para carregá-los aumenta ainda mais o estresse do gado enfraquecido. Esmagados contra animais estranhos, os animais se ferem uns aos outros na sua agitação. Insolações, traumas e doenças respiratórias serão dizimadores numa jornada de dezesete dias.

Quando chegam ao Líbano, os animais são muitas vezes abatidos de forma desumana e violadora das normas religiosas. Após semanas de desnecessário sofrimento animal, o consumidor é erradamente levado a crer que a carne é 'Halal'. O abate humanitário, realizado num local próximo ao de onde os animais foram criados, não só terminaria a crueldade do transporte por longas distâncias, como criaria empregos no Brasil.

Como é feita hoje, mesmo sendo condenada por muita gente, a exportação de boi em pé para o Líbano é uma fonte cada vez maior de lucros para quem investe no setor, como produtores de gado do Pará e da Amazônia. Os números provam isto: a Associação dos Exportadores de Bovinos (ABEG) divulgou que em 2012 o Brasil embarcou 512 mil cabeças de gado, faturando US$ 582 milhões. Já em 2013 o valor saltou 23%, foram exportadas 688 mil cabeças, um total de US$ 717 milhões, batendo o recorde de 2010, que teve um faturamento US$ 658 milhão.

A ABEG informou ainda que os embarques de gado em pé devem continuar a crescer. Os principais clientes são a Venezuela, que em 2014 atingiu 71,8% de todo o gado em pé exportado pelo Brasil, seguido pelo Líbano, com participação de 17,6%.

5 comentários:

  1. Amigo Carlos Mendes, bela denuncia, é preciso que se tome vergonha nesse Pais, que haja fiscalização nesse transporte de gado que passa horas confinado a sua própria sorte , é uma aberração isso!

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  2. Meu primo, publiquei o vídeo para provocar as autoridades ditas competentes. É uma aberração que agride a todos nós o que esses empresários são capazes de fazer para ganhar dinheiro. O lucro a qualquer custo supera qualquer sentimento de compaixão por esses animais, torturados em vida antes de irem para o abate.

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  3. Isso é um absurdo muita crueldade

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  4. Carro Mendes,
    Estamos vendo o que podemos chamar de uma tragédia anunciada. Quando tudo começou, a exportação era feita alí, no cais do porto de Belém. Tudo improvisado. Os navios eram servidos por plataformas inadequadas.Os caminhões ficavam dias parados alí na Doca de Souza Franco e, quando o cheiro do mijo e do esterco incomodou o Umarizal e o Reduto, decidiram levar tudo para Barcarena. Improviso novamente, deu no que deu. Para embarque de cargas vivas, há uma série de normas ambientais que não podem ser ignoradas. Mas a busca do lucro com pouco investimento no setor, cega os empresários. Há quem diga, que a exportação de gado em pé, é a mesma coisa que exportar madeira em tora ou minério bruto. Não agrega um centavo de valor. Se aqui, o embarque resulta em tragédia, imagine o desembarque nos portos de destino daquele gado.
    Até para exportar, nossos empresários são incompetentes. Uma pena, bem que poderíamos aprender como se faz, na Austrália e até no Canadá, onde também exportam gado em pé. Mas as condições lá, são outras. Há profissionalismo e mitigação dos impactos estressantes da carga viva.
    Agenor Garcia
    jornalista
    gestor ambiental.

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