domingo, 11 de outubro de 2015

Mobilidade urbana: o que vamos comemorar nos 400 anos de Belém?

* Francisco Sidou

A previsão técnica, com precisão cirúrgica, feita pelos consultores da Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica), na década de 80, quando da elaboração de mais um Plano Diretor de Transporte Urbano (PDTU ), de que Belém iria "travar por volta de 2010", caso nada fosse feito em obras viárias para melhorar a mobilidade urbana, já é uma realidade vivenciada no cotidiano de mais de 1,7 milhões de pessoas que trabalham, estudam ou residem na Grande Belém. 

Como todo grande núcleo urbano, a capital paraense enfrenta o inchaço que aumenta vertiginosamente. A frota de veículos na região metropolitana de Belém vem crescendo a uma taxa de 10 % ao ano. Já circulam hoje na cidade mais de 600 mil veículos automotores e a expectativa é que essa frota triplique nos próximos dez anos.
 
Nesse cenário cada vez mais conturbado, por falta de planejamento urbano e de obras viárias indispensáveis, os motoristas continuam disputando espaço praticamente nas mesmas vias de 30 anos atrás. Apesar da gravidade do problema, que atinge não só os condutores, mas a quantos precisam se deslocar em transporte coletivo para trabalhar ou estudar, as soluções até agora apresentadas são cosméticas e inversamente proporcionais à velocidade com que o pesado tráfego e estressante trânsito caminham para o estrangulamento quase total do sistema viário de Belém. 

Os problemas do trânsito em transe têm provocado, além dos congestionamentos colossais, abalos na saúde e na qualidade de vida da população. Buzinaços que nada resolvem, mas estressam; filas duplas e triplas na frente de colégios particulares; o "jeitinho" de parar o carro em qualquer lugar "porque não vai demorar, é rapidinho" ; ocupação de vagas de idosos e pessoas com deficiências na maior cara de pau"; o desrespeito às normas de trânsito (dirigir sem cinto de segurança e falando ao celular, dirigir sem capacetes nas motos, carregando mais de 2 pessoas e até crianças sem proteção , bicicletas e carroças na contramão), além de total ausência de regras mínimas de civilidade formam um "caldo de cultura" que está deixando todo mundo estressado junto com o trânsito engessado e sem lei.
 
Saídas ? Elas existem e estão bem ali na nossa frente. São as abundantes águas que banham Belém, que continua de costas para sua vocação natural. Não por culpa sua, claro, mas dos interesses escusos e difusos da perdulária  elite econômica que domina a gestão da cidade. Transporte fluvial urbano é a solução economicamente mais viável que ainda pode ser adotada para livrar Belém do inevitável colapso de seu falido sistema de transporte viário, que padece dos efeitos perversos da falta de planejamento e do descaso de décadas e de gestões pífias, amadoras e temerárias.
 
A Semob anunciou, há seis meses, com pompa e circunstância abertura de licitação para uma linha fluvial urbana incluindo no trajeto Mosqueiro/Belém, Outeiro/Icoaraci/Belém, com modernas lanchas fluviais. Depois disso, a Semob se fechou numa cortina de silêncio. Aguardávamos todos que esse seria um presente para comemorar os 400 anos de Belém. Ledo engano !
 
Certamente os donos de ônibus, que também se acham os donos da cidade, não gostaram da"novidade" e trataram de dizer isso com todas as letras ao pessoal da Semob. Os donos de ônibus estão satisfeitos com o caos hoje instalado no trânsito de Belém e não querem mudanças. O problema é que eles não foram eleitos pelo povo. Apenas deram uma "ajuda" na eleição do atual e de todos os ex-prefeitos de Belém nos últimos 50 anos...

Com isso, se acham no direito de barrar todo e qualquer projeto que represente uma saída moderna para o sistema de transporte de Belém, com medo de perder seus privilégios sustentados pela "cultura do atraso" e pelo descaso de gestão de nossa maltratada cidade. Bela, morena,brejeira e faceira, apesar da indiferença de alguns filhos ingratos (incluindo alguns políticos) que insistem em maltratá-la .

Francisco Sidou é jornalista
chicosidou@hotmail.com

Na Almirante Barroso, a bagunça diária de sempre, sob a inércia da Semob

O papel aceita tudo, inclusive projetos que nunca decolam
 

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