sábado, 31 de outubro de 2015

GOSTAR DE MULHER

  
Oswaldo Coimbra *
 
Para fotografar bem nu feminino é preciso gostar de mulher, sustenta André Arruda, autor de Fortia Femina, um ensaio com imagens sensíveis e criativas de jovens despidas que despertou a atenção da imprensa no Rio de Janeiro e em São Paulo. E isto - André acrescenta -, não significa só gostar de fazer sexo com ela. É algo mais profundo, ligado à admiração pelo chamado universo feminino.
 
Ninguém, porém, se anime, ingenuamente. Deste universo, os homens têm apenas breves apreensões. Às vezes, de modo inesperado e curioso. Como ocorreu com o jornalista mineiro José Maria Rabelo. Num período em que complementava seu salário com o exercício do magistério, ele entrou num elevador de sua escola - a bata ainda borrifada, na altura do peito, com o pó do giz usado em sua aula. 

A seu lado, instalou-se uma aluna. A porta do elevador fechou. E, para espanto de Rabelo, a aluna, sem dizer nada, esticou o braço e delicadamente limpou com as pontas dos dedos, o pó de giz na bata. Rabelo, imediatamente, compreendeu: aquela jovem, praticamente desconhecida, o amava. Muitos anos depois, casados, com uma vida em comum já transcorrida, Rabelo dizia para ela, brincando: “Está vendo? Continua limpando minha bata até hoje”.
 
Outra “súbita sensação de entendimento da essência de algo” foi experimentada pelo cronista Antônio Prata. Sua epifania ocorreu numa cena caseira, enquanto observava a esposa esvaziar uma grande mala, na qual ela tinha transportado roupas e outros objetos pessoais desde um país distante que visitara. De repente, no meio das roupas, surgiu uma jarra de suco grande e bonita. Sua mulher explicou: iria usá-la durante os lanches do casal. A reação de Prata ficou registrada na crônica “A Jarra”: “Que coisa curiosa é uma mulher! Que coisa incrível! Jamais me ocorreria comprar uma jarra de suco”.
 
Muita gente acredita que neste esquivo e inapreensível universo o compositor e escritor Chico Buarque seria uma autoridade. E recusa, enfaticamente, o título. No documentário “À flor da pele”, Chico diz: “Há sempre para mim um grande mistério na alma feminina. Gosto de ver como elas se movem, raciocinam, reagem diante das coisas. Mas a surpresa é algo que nunca acaba”.
 
Portanto, gostar de uma mulher, talvez implique em resignação. A de quem sabe que pode apenas observá-la com atenção e curiosidade, antevendo que, vez por outra, vai se surpreender - e, caso saiba apreciar isto, se encantar - com a peculiaridade do comportamento dela.
 
Apesar das dificuldades de previsão e entendimento dos “motivos de mulher”, como os chama Chico naquele depoimento, há artistas da música popular brasileira capazes de uma grande proeza: a de criar personagens femininas que expressam complexos sentimentos em relação aos homens, como mulheres reais.
 
Uma delas, criada pelo próprio Chico, diz: “Mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer. Se deitou na minha cama e me chama de mulher. Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não, se instalou feito um posseiro, dentro do meu coração”. Outra, criação de Caetano Veloso, se manifesta assim: “Ah! Esse cara tem me consumido, a mim e a tudo que eu quis, com seus olhinhos infantis, como os olhos de um bandido”. 

Mulheres semelhantes surgiram antes no âmbito de criação da MPB, graças a artistas como, por exemplo, Assis Valente. Sua personagem lamenta: “Meu moreno fez bobagem. Maltratou meu pobre coração. Aproveitou a minha ausência e botou mulher sambando no meu barracão. Quando eu penso que outra mulher requebrou pra meu moreno ver, nem dá jeito de cantar. Dá vontade de chorar e de morrer”. 

Já uma personagem de Paulo Vanzolini diz ao amado: “De noite eu rondo a cidade a te procurar, sem encontrar. No meio de olhares espio, em todos os bares. Você não está. Volto pra casa abatida, desencantada da vida. (Só) O sonho alegria me dá. Nele você está”.
 
Os sentimentos captados por estes artistas mostram a empatia que procuravam manter com as mulheres, por gostarem delas. Eles também quiseram produzir bem seus nus femininos. 

De outro tipo, claro.

*Oswaldo Coimbra  é professor de jornalismo e escritor

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