terça-feira, 20 de outubro de 2015

É tempo de mangas. O promotor do Meio Ambiente vai às compras e o poeta se rende às mangueiras de Belém

O promotor de Justiça Benedito Sá é cliente de John Kennedy ( de boné)
Apanhar manga com vara é uma arte
Todo esforço para faturar uns trocados




John Kennedy apanha mangas há 35 anos e fatura R$ 80 por dia


Ele tem o nome de um ex-presidente norte-americano, assassinado em 1963, numa rua de Dallas. Mas, de americano, mesmo, não tem nada. É paraense, de Belém, a cognominada "Cidade das Mangueiras". John Kennedy dos Santos Chaves, 49 anos, desempregado, já andou à procura de emprego e nada  encontrou. Como não tem diploma de curso superior e nem fez curso de qualificação, é um daqueles sujeitos economicamente inviáveis dentro do sistema capitalista. 

Vive porque é persistente. Tem garra, alma e não se deixa abater pelo desanimo. Vai à luta todos os dias. Como milhões de brasileiros pobres e decentes. Para matar a fome da família, faturando alguns trocados, John Kennedy, munido de uma vara, apanha mangas pelas ruas do centro de Belém. Seu local de trabalho é a área das avenidas Braz de Aguiar, José Malcher, Assis de Vasconcelos, Presidente Vargas, Nazaré e Praça da República. 

O repórter-fotográfico Jorge Nascimento flagrou Kennedy na labuta, de pescoço para o alto, mirando nas mangas para derrubá-las e colocá-las sobre um carrinho, o conhecido "rabo de boi". Os clientes param nos carros e fazem questão de comprar a manga fresca.

Pai de cinco filhos, Kennedy revelou ao Ver-o-Fato que há 35 anos apanha mangas para vendê-las. "Já trabalhei como vigilante de uma empresa, mas a empresa faliu e eu fui demitido", conta. Por dia, ele   fatura R$ 80,00. É com esse dinheiro que mantém a família, inclusive os filhos na escola. 

Um dos clientes de Kennedy é o promotor do Meio-Ambiente, Benedito Wilson Sá, um implacável defensor das mangueiras da cidade e combatente da degradação da vida urbana. Para Benedito, dezenas de pessoas como Kennedy, além de criar uma alternativa de renda para ajudar suas famílias, ainda contribuem para evitar que as mangas caiam sobre os parabrisas dos automóveis estacionados nos acostamentos do centro da cidade. A queda das mangas maduras causa prejuízos aos proprietários de veículos.

"Eu mesmo já sofri por quatro vezes prejuízos em meu carro, após a queda das mangas, porisso valorizo o trabalho dos apanhadores, pois eles colhem as mangas maduras ainda na árvorem, evitando que elas caiam e provoquem danos aos veículos e até mesmo sobre a cabeça ou outras partes do corpo das pessoas", explicou o promotor. Benedito Sá disse que quanto mais alta está a manga na árvore, maior é o risco que ela representa para carros e pessoas. 

As mangueiras, na verdade, além de matar a fome de muita gente, contribuem para a arborização de Belém, cada vez mais carente de árvores em suas ruas. Quem dera tivéssemos mangueiras por toda a cidade. A vida de seus habitantes, com certeza, seria bem melhor. A temperatura, debaixo da árvore, cai até quatro graus centígrados.

Elas são de origem asiática e chegaram ao Pará por volta de 1700, trazidas pelos portugueses, depois de descobertas as rotas marítimas entre a Europa e a Ásia.

O poeta e escritor paraense João de Jesus Paes Loureiro  escreveu, abaixo, a sua ode às mangueiras.



Ai! Cidade das Mangueiras!
Quem te vê e não te ama?
O rio se curva e te oferta
um branco buquê de espuma.
A noite deita nos becos
e a cuia da lua derrama.

Ai! Cidade das Mangueiras!
Quem te vê e não te ama?
Ruas de anjos com asas
de verde beleza arcana.
Ai! Mangueiras da Cidade,
que o sol esculpiu na sombra,
por vós o poeta implora,
por vós a poesia clama…
Ai! Cidade das Mangueiras!
Quem te vê e não te ama?

Por que vagam na cidade
assassinos de mangueiras,
matando-as por querer
ou matando de encomenda,
matando à sombra da lei,
essa lei sem lei, sem lenda?
Essa triste lei da morte
que tem na morte sua vida.
Não deixem que passe impune
esse crime, essa desdita.
Fotografem, multipliquem
vosso “não” pela internet,
pelos blogs, no youtube,
nos orkuts, nos e-mails,
nas asas dos passarinhos
que estão perdendo seus ninhos,
no peito dos que se amam,
nos muros e nos caminhos…

Quem pode lavar a mão
olhando esse arvorecídio?
Que frutos hão de brotar
nos galhos da solidão?
Que é feito do coração
desses que sem piedade
arrancam pela raiz
as raízes seculares
da alma desta cidade?

Ai! Mangueiras de Belém!
Anjos de verde folhagem,
que fazem sombra com as asas
mas são em poste enforcadas.
Verdes berlindas de mangas
no Círio de cada dia.
Campanários de andorinhas
nos corais da ave-maria.

Ai! Cidade das Mangueiras!
Quem te vê e não te ama?
Tua leve melancolia
presa em gaiolas de chuva.
Teu dia, garanhão de auroras
tua noite sempre viúva…
Belém, donzela das águas,
no rio do verso encantada.
Oh! Barca de verdes velas,
no Ver-o-Peso aportada.


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