domingo, 11 de outubro de 2015

Círio de Nazaré: na catarse, um banho espiritual

 

Não há como dissociá-lo: o Círio de Nazaré é a cara do Pará. Basta ver nas ruas, pelo jeito do povo, arraigado a uma fé inquebrantável. No jeito de olhar, sentir e abraçar. No romeiro que faz ou paga promessa vestido com a camisa de Remo ou Paysandu. Ou daquele que carrega uma casa, um barco ou uma geladeira de isopor na cabeça, agradecendo pela conquista que parecia impossível. 

No modo de falar, na intimidade com que trata a imagem da santa, chamando-a de Nazica, o que assusta os católicos mais conservadores. No jeito de receber os turistas, tratando-o com hospitalidade e exibindo sua cultura. Na verdade, é impossível separar as coisas: o Círio de Nazaré, embora seja um momento de religiosidade, magnetiza o povo em outras direções, expondo sua alegria e alma. Na roupa nova comprada para exibir aos amigos e parentes, antecipando o Natal; na comida caprichada e democrática, que tem para todo mundo.

O vizinho que preparou a maniçoba, mas não tem na mesa o pato no tucupi, vai comer pato, no troca-troca de uma solidaridade comunitária que poderia ser vivida todos os dias do ano, de outras formas, como nos mutirões para recolher o lixo das ruas e melhorar a qualidade das calçadas para a passagem de idosos e pessoas com deficiência. 

Ou nas manifestações e passeatas para cobrar  das autoridades hospitais e postos de saúde que funcionem, água tratada e durante 24 horas nas torneiras, escolas decentes e com merenda para os estudantes. Enfim, setores de carências tão grandes quanto o próprio tamanho do Pará. Não precisamos de milagres, nesses aspectos, mas apenas de competência e sensibilidade social dos nossos governantes.

Pessoalmente, a magia que cerca o Círio de Nazaré sempre me encantou. Inclusive suas manifestações profanas, como o Auto do Círio e a Festa da Chiquita. É algo difícil de explicar: mistura de sentimentos e de imagens que atravessam o tempo. Quando eu era menino, ficava surpreso e encantado com tudo: a multidão, arrastando-se feito cobra pelo chão, como diz Gilberto Gil; os brinquedos de miriti, nas mãos dos vendedores; o carro dos milagres, o dos anjos, o fervor dos promesseiros, os fogos na Praça dos Estivadores, a corda sofregamente conduzida pela multidão no pagamento de promessas, os padres paramentados em volta da berlinda, os romeiros andando de joelhos, no asfalto quente.

O Círio é a repetição que se renova há 223 anos. No mesmo sentimento de fé, cada vez maior. E também como alegoria, o carnaval devoto, na expressão do sociólogo paraense Isidoro Alves. Ou seja, uma catarse, um expurgo das coisas ruins. Melhor dizendo, um banho espiritual.

Feliz Círio a todos. E que ele se faça todos os dias, na expressão simples e cotidiana das coisas.

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