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Linha de Tiro - 12/04/2018

domingo, 18 de outubro de 2015

AS LUZES E A CORAGEM QUE SALVAM VIDAS NA AMAZÔNIA

A foto é do piloto anônimo, que mesmo salvando vidas fez um voo irregular
Um avião monomotor se aproxima para pouso na pista bem iluminada lá embaixo. Mas o que se vê na foto acima não é uma pista. Trata-se de um campo de pouso improvisado, de chão de areia, não homologado, no interior da Amazônia. Sua iluminação está sendo feita por centenas de motocicletas de pessoas que se mobilizaram para salvar uma vida. Lá em cima, no pequeno monomotor, Paulo está disposto a ajudar um paciente agonizante. Ele é um piloto destemido, experiente e como muitos pilotos da Amazônia, adora aventuras, tendo um senso de solidariedade de raízes tribais.

Paulo se aproxima para o pouso orientado pelos faróis das motos estacionadas nas laterais da pista e o carro da polícia indicando a cabeceira da pista a ser usada. Pouso perfeito, paciente embarcado no pequeno avião e conduzido para um grande hospital de Santarém. Mais uma vida salva pela coragem de um piloto e pela solidariedade de centenas de pessoas que, literalmente, trouxeram luz para iluminar o caminho, e alegrar os corações dos familiares do paciente.

Uma semana após ter recebido a foto e ouvido esse relato de Paulo, uma criança fica gravemente enferma em outra cidade próximo a Santarém. O leito do hospital - do qual sou diretor - está liberado e aguarda pela criança. A aeronave e médico já estavam preparados, porém já se passava das 18 horas e não poderia mais pousar na cidade onde a criança estava. A cidade não tinha iluminação noturna. O avião não mais poderia pegar a criança naquele final de tarde, e ela possivelmente não mais resistiria até a manhã do outro dia. Pensei em ligar para o destemido piloto e pedir a ele que repetisse a façanha e pegasse aquele criança de qualquer jeito, mesmo durante a noite, com iluminação improvisada. 

Mas, estaria arriscando demais, e se algo desse errado, ninguém iria compreender que estávamos fazendo algo legítimo, humano, mas ilegal. Não liguei para Paulo e fui para casa com o coração angustiado, sentindo-me impotente diante das dificuldades. Antes de colocar a cabeça no travesseiro, a enfermeira do hospital me liga. “Doutor a criança acabou de chegar em nosso hospital!’’ disse ela do outro lado, toda contente. “Como ? Quem trouxe essa criança essa hora da noite?” perguntei. “Foi um piloto e uma enfermeira que não sei o nome, em um monomotor, doutor”


A criança havia sido salva. Piloto e enfermagem mais uma vez se arriscaram pelos céus da Amazônia e em pistas de cidades que não possuem iluminação noturna. Exemplos de coragem e iniciativa que deveriam ser seguidos pelos prefeitos dessas localidades.


Até quando, cidades como Oriximiná, Óbidos, Monte Alegre, Prainha, Rurópolis, Placas, Uruará e várias outras continuarão com suas pistas às escuras tendo que remover um de seus munícipes gravemente enfermo? Até quando essas cidades contarão apenas e tão somente com a maravilhosa solidariedade humana e a coragem de um piloto? 

Relato de Eric Jennings - Médico e diretor do Hospital Regional do Baixo-Amazonas


2 comentários:

  1. É meu caro, é a Amazônia na mão de pessoas que fingem administrar alguma coisa, sem nenhum compromisso com a população visando somente o dinheiro. E não tem nenhum mistério em fazer sinalização para pistas. Parabéns a todas as pessoas que ajudaram e ao piloto. No dia em que a mãe de algum prefeito precisar talvez faça, talvez.

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  2. O redator do blog, meu caro João, já viajou muito de monomotor, cobrindo a Amazônia como repórter, e viu cada coisa que mereceria entrar num livro. Já pousou em pista iluminada por luzes de lanternas e candeeiros e em pistas construídas com serragem em beira de rio, como na cidade de Anajás, no Marajó. Esses pilotos que singram os céus da região é que são heróis anônimos, fazendo resgates de ribeirinhsoe índios doentes, salvando vidas. O heroismo dessa gente não sai no jornal, cujas páginas são dedicadas às desgraças cotidianas.

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