terça-feira, 27 de outubro de 2015

A MELHOR OPORTUNIDADE PERDIDA DE VIVER EM PAZ


 
“Bandido bom é bandido morto”.
 

“A polícia prende, a justiça solta”

“Polícia e bandido é tudo igual”

“Cadê os direitos humanos ?”


Frases e clichês como os acima, pronunciados no calor da revolta, ajudam a temperar o caldo de violência e barbárie que presenciamos todos os dias pelas ruas e lares do Brasil, principalmente no Pará, uma terra onde se tinha o prazer de no final das tardes-noites calorentas colocar a cadeira na calçada e bater papo com o vizinho, ou receber amigos. Esse hábito gostoso, um privilégio da maioria da população - e que contribuía para estreitar nossas relações humanas na vida em comunidade -, hoje é restrito aos ambientes fechados, cercados de muros altos, com cercas elétricas e grades. Ou, para quem pode pagar seguranças, aos condomínios dos mais abastados financeiramente.

Nos subúrbios de Belém, que a mídia moldada pelo sentimento elitista chama de periferia, os mais pobres se recolhem mais cedo para evitar de colocar a cara na janela ou na porta e virar refém de algum criminoso mal intencionado ou em fuga de crime que acabou de praticar. Divertir-se em rodas de pessoas que se conhecem e se frequentam, na mesma rua, no mesmo bairro, ou distante do local de moradia, transformou o que era prazer em sacrifício e risco.

A alegria, aos poucos, vai dando lugar ao medo. Ir para a escola, para o trabalho, para a igreja, ou academia, é sempre seguir acompanhado pela insegurança de que não se tem a garantia, como cidadão e cidadã que paga seus impostos, de que voltará para casa são e salvo. Ou que não encontrará pelo caminho quem lhe aponte uma arma e tome o celular, o parco dinheiro que carrega, quem sabe o carro, se estiver parado no sinal de trânsito, não importa a hora.

Nossos prazeres cotidianos, aqueles construídos nas boas relações sociais e na troca de conhecimentos e experiências de vida, como ir a um cinema, frequentar um barzinho, almoçar uma vez ou outra num restaurante, até mesmo relaxar na praia, ou passear numa praça com familiares aos domingos, viraram programas que precisam ser previamente avaliados. Não se pode correr riscos desnecessários. Afinal, seguro morreu de velho.

Temos de reconhecer, contudo, que somos ao mesmo tempo vítimas e algozes daquilo que nos atormenta e nos rouba o sono. Deixamos de agir, cobrar, reivindicar, à espera de que o político ou governante faça algo por nós. O resultado disso é uma sociedade doente, movida pelo egoismo e arrogância. Estamos cada vez mais fechados e desconfiados das pessoas com quem cruzamos.

Elas ameaçam a nossa individualidade e segurança interior com um simples olhar ou gesto. A solidariedade, a mão estendida, o apoio a quem precisa de ajuda, que deveriam ser regras sociais, são hoje manifestações restritas a grupos de abnegados. Temos medo de tudo e de todos. Nos sentimos agredidos numa simples divergência de ideias. As redes sociais são o retrato da nossa alma. O nível de intolerância extrapola todos os limites.

Somos uma sociedade à beira da explosão, do "basta", mas não conseguimos reagir. Entregamos nossa capacidade de reação aos heróis de pés de barro que vão lutar por nós, nos palanques políticos, nos templos religiosos, na TV e no rádio. Nossas vidas estão cada vez mais vazias e medíocres.

Além disso, viramos reféns da mídia, do modismo, do politicamente correto, uma excrescência que nos vigia e da qual poucos tem a liberdade e a consciência de fugir. Vigiados por patrulhas ideológicas e comportamentais, evitamos dizer o que pensamos, temendo a exposição. De quê? Não sabemos. 

Matamos nossa incapacidade de nos indignar com a corrupção dos governantes, com a inércia das autoridades que deveriam nos proporcionar segurança, e com a lentidão da Justiça. O mal está sempre nos outros. Nós somos o bem.

Diante desse quadro, fazer justiça com as próprias mãos está virando regra. O preso em flagrante, como o simples suspeito de prática de crime, estão sujeitos ao mesmo destino: o linchamento popular. É a política do “olho por olho, dente por dente”, a chamada Lei de Talião. A pena de morte já é uma realidade, faz tempo, menos para as autoridades que brincam de segurança pública.

Temos de viver atrás de grades, cercados de cachorros, cercas elétricas e câmeras de segurança em nossos lares. Tudo isso para buscar o mínimo de segurança que o Estado não nos oferece, embora receba bilhões para isso dos cofres públicos.

Em meio a tudo, uma verdade particular não pode ser esquecida: o cidadão comum, como o policial, seja militar ou civil, está só e abandonado. Ele virou estatística, uma cruel estatística. A de quem pode morrer a qualquer momento, de bala, susto ou vício – só para lembrar aquela letra de Caetano Veloso. Ou escapar e permanecer vivo para contar a estória.

Da qual, com certeza, não é mero coadjuvante, mas personagem principal.

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