domingo, 25 de outubro de 2015

A demissão da professora Luzia Miranda Álvares : pior para os leitores, pior para "O Liberal"

Avelino Vanetta Do Vale *

A demissão da jornalista Luzia Miranda de O Liberal parece consolidar na imprensa escrita de Belém o equívoco de que já não se justifica publicar uma coluna de crítica cinematográfica. É antiga nas redações a ideia de que cinema teria um público cada vez mais reduzido, do qual poucos seriam leitores de jornal e raros seriam leitores de crítica cinematográfica. Tal concepção decorre de uma visão parcial de cinema, como se ele existisse apenas em umas poucas salas de exibição; não leva em conta a nada desprezível inserção que o cinema tem na televisão, esta sim, de massa, e portanto merecedora de amplo espaço na mídia impressa, como se fosse possível apartar o veículo do conteúdo que ele transmite. 

Deriva daí a ideia de que crítica de cinema interessaria apenas à elite intelectual, meia dúzia de leitores, inexpressivos para fins de venda de um jornal. Sabe-se que para muitos jornalistas, principalmente dirigentes de redação, a vendagem do jornal ou revista tornou-se uma crescente preocupação e está relacionada ao exercício diário da profissão, devido a queda geral na venda de periódicos e a ameaça de desemprego que esse declínio acarreta. Chega-se, por essas vias, à supressão do espaço para a crítica cinematográfica. A meu ver, essa eliminação é um erro, porque desconsidera, de início, um dado elementar dos mais conhecidos: jornal é fonte de informação complementar das fontes rádio, televisão, smartphone e afins. 

Como tal, um determinado jornal só motiva o consumidor a gastar dinheiro para dele comprar um exemplar se ofertar informação diferenciada, a mais e em profundidade, em comparação com as fontes acessíveis sem custo imediato e, ainda, com jornais concorrentes. Essa informação diferenciada, adicional e aprofundada, obviamente, está relacionada com a diversidade do público leitor. Desses fatos, desdobra-se uma reflexão: com base em que, afinal, O Liberal teria concluído que frequentadores de salas de cinema e aficionados de filmes na televisão não se ressentem da falta de crítica cinematográfica no jornal? 

Pela linha de raciocínio de que crítica de cinema não se justifica porque supostamente teria poucos leitores é possível concluir que mais injustificado é o incomum número de colunas sociais no jornal. Por outro lado, é no mínimo estranho que um jornal que promove o mais tradicional e concorrido salão de artes plásticas da Região elimine a coluna de cinema que mantinha há mais de quatro décadas. Terá feito o corte porque o jornal concorrente não tem uma coluna de crítica cinematográfica?

Se isso tiver contribuído para a supressão, estamos diante de um nivelamento por baixo, em que um jornal se deixa pautar pela omissão praticada pelo concorrente. Luzia Miranda tem um blog. Foi perdida a oportunidade de vincular esse blog ao site da empresa. A eliminação da coluna Panorama teria sido porque a forma de abordagem do tema cinema não estaria em sintonia com uma nova feição editorial a ser estruturada? Em caso de resposta afirmativa, O Liberal está a carecer do fator diálogo, com vistas a mudanças para melhor. 

Eliminar é fácil. Melhorar dá trabalho. Com a eliminação da coluna de crítica cinematográfica, O Liberal encolhe e perde em qualidade. Mais que isso: com a saída da jornalista Luzia Miranda, desperdiça a oportunidade de ganhar substância. Poderia ganha-la por meio de mais matérias jornalísticas sobre mulher, afora as que Luzia já vinha escrevendo, as que poderia articular, tudo com o muito que ela tem, extraordinária formação acadêmica e vivência profissional na principal instituição de ensino superior do Pará. 

Tudo com abordagens contemporâneas, capazes de ampliar quantitativa e qualitativamente o quadro de leitoras, e leitores, do jornal, a começar do meio estudantil. Ao invés disso, na contramão de um jornalismo que atenda a diversidade de interesses dos leitores, o que se prenuncia é o empobrecimento de conteúdo editorial. 

Pior para os leitores, pior para O Liberal.

*Avelino Vanetta do Vale é jornalista e produtor cultural. 

Avelino Vale diz que a demissão de Luzia representa "nivelamento por baixo".
 

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