VER-O-FATO: O jornalismo do Pará sem Franca Siqueira. Há um vazio em nossa redações

terça-feira, 8 de setembro de 2015

O jornalismo do Pará sem Franca Siqueira. Há um vazio em nossa redações

Repórter de ofício, que sugeria e transformava a sugestão de pauta em manchete de jornal, Franca Siqueira se vai num momento em que a imprensa do Pará enfrenta uma de suas piores crises. Já está fazendo falta, porque repórter como ele não dá em árvore nem surge da noite para o dia.

Posso dizer, nesse testemunho pessoal de quem o conhecia desde a "Província do Pará", passando pelas redações de "O Liberal" e "Diário do Pará", que Franca tinha o faro para pescar sempre as melhores notícias. Criterioso na apuração, extremamente educado na abordagem do entrevistado e sempre com uma bateria de fontes à disposição, dentro e fora do poder executivo e empresarial, ele era aquele repórter capaz de tirar leite de pedra, garimpando informações até mesmo de onde, aparentemente, nada havia para extrair.

De texto limpo, direto e objetivo, suas reportagens traziam a marca da credibilidade junto aos leitores dos jornais pelos quais passou. Pode ter acontecido alguma vez, mas nesses 40 anos de jornalismo em que atuei com ele em três redações, nunca soube de algum direito de resposta em matéria produzida pelo Cornélio França Siqueira, que adotou as marcas Franck Siqueira e, por último, Franca Siqueira. Especializado em economia, área do jornalismo da qual muitos repórteres fogem como o diabo da cruz, ele conseguia traduzir o economês de seus entrevistados para o entendimento do mais comum de seus leitores. 

Tudo isso sob o domínio perfeito do texto jornalístico, aquele que se dá ao luxo de jogar no lixo a linguagem rebuscada, verdadeira casca de banana que derruba qualquer repórter metido a sabichão sobre assunto que não domina. Aliás, vi muitos repórteres aflitos, pressionados na redação por chefes com cara de poucos amigos e a corda do deadline quase sufocando-os, não saberem o que fazer para concluir a matéria e entregá-la a tempo ao editor. 

Franca Siqueira era mestre em tirar isso de letra. Entregava a matéria muito antes do fechamento e ainda ia dar palpite na edição, sugerindo o título. Vida fácil para o editor e o diagramador, o primeiro poupado de pensar, e o segundo de calcular o número de toques e de colunas no espaço da página. Ainda sobrava tempo para tirar sarro com os atrasadinhos e atirar bolas de papel em direção aos mais concentrados - uma brincadeira nas redações de hoje cada vez mais distante.

Nos últimos meses, o cara alegre - apesar da aparente sisudez escondida sob as grossas lentes dos óculos - queixava-se de dores pelo corpo, principalmente na coluna. No "Diário do Pará" dividia as reportagens sempre interessantes com períodos de licenças médicas. A última vez que o vi, em junho passado, na frente da TV RBA, pouco antes de minha demissão do jornal, ele parecia triste e meio desanimado. "Ando cansado", resumiu. Completei: "temos de nos cuidar". E ele: "isso mesmo".

Nos abraçamos, repetindo quase simultaneamente, um para o outro, "me liga". Foram nossas últimas palavras. Vou sentir falta do amigo e do grande repórter que foi. Um dos melhores textos da imprensa paraense de todos os tempos. E um bom papo em todas as ocasiões em que falamos sobre vida, família, clubes de futebol, muita política, conjuntura econômica, e, para variar, broncas de governantes

Fica na paz, Franca Siqueira.


                                     Franca deixou sua marca de bom repórter na imprensa do Pará
 
  
 

4 comentários:

  1. Meu caro Mendes,
    Nem só de economia e política o Franca entendia e escrevia bem.Em meu livro "Re-Pa-Rivalidade Gloriosa" reproduzi um texto dele de "A Província"por ocasião das despedidas do Negão Alcino que foi para o Gremio em 1976.Um belo texto.Eu não era íntimo dele.E quando surgiu em Belém(ele era daqui mesmo?) eu já não estava no jornalismo diário.Mas sempre apreciei seus textos, como vc diz, objetivos e diretos.Nada de nariz de cera ou rococós que isso é do tempo do ronca.Que descanse em paz.

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  2. Tens razão, Expedito. O Franca atuava em todas e sempre com muita competência. E estudava, lia muito, sobre assuntos diversos. O que todo jornalista deveria fazer, mas não faz.

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  3. É isso mesmo, Carlos Mendes, há um vazio com a perda deste grande profissional. De Uma apuração minuciosa e texto sem igual. Um ser humano boníssimo e corretíssimo, superlativos que tão bem se aplicavam ao Frank

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  4. Bela homenagem, Carlos Mendes, a um grande profissional da imprensa que a todos nós, jornalistas ou leitores, nos deixa um pouco órfãos. Os melhores estão nos deixando. Que seu exemplo possa ser compartilhado pela nova geração de jornalistas.

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