domingo, 6 de setembro de 2015

O general Figueiredo quis humilhar Alacid no aeroporto militar, em 1982. O governador caiu para cima.


Como repórter, a lembrança mais latente do ex-governador Alacid Nunes ( falecido no sábado) que guardo na memória foi um episódio que testemunhei, na pista do aeroporto militar de Belém, às vesperas da eleição de 1982. O general-presidente João Figueiredo desce do jatinho  e encaminha-se para a fila de autoridades do Estado que irão lhe dar as boas vindas. O primeiro da fila, como manda o protocolo, é o governador do Estado. O general observa o braço estendido e a mão de Alacid para cumprimentá-lo, mas Figueiredo nem olha para Alacid. Passa direto, impávido, ignorando a presença do governador. A mão estendida fica no ar, vazia, por rápidos segundos, enquanto Figueiredo se adianta e acolhe outras mãos estendidas de autoridades, apertando-as sob a frieza do protocolo.

Aquela humilhação perpetrada por um presidente da República contra um representante maior de um Estado Federativo nunca me saiu da cabeça. Mas do que, ela, porém, o que permeia minha lembrança foi o semblante altivo de Alacid, que engoliu secamente a desfeita sem perder a linha, seja como autoridade, seja como homem. Minutos depois do episódio, numa saleta apertada do saguão do aeroporto, aproximei-me de Alacid. Minha curiosidade em saber o que Alacid pensava daquilo era muito maior, quem sabe, do que a aflição do governador.

Notei que ele suava muito e mal conseguia esconder o desconforto diante dos olhares percucientes de outras autoridades que haviam, como eu, testemunhado aquela inacreditável cena política na pista do aeroporto, minutos antes. Certamente, nas conversas de grupos que se formavam - enquanto Figueiredo se preparava para deixar o aeroporto rumo ao centro da cidade, onde iria participar de um comício - a descortesia traduzida em agressão protagonizada pelo general-presidente contra o tenente-coronel governador era o assunto dominante, embora entre quase sussurros.

"Me desculpe, Carlos, mas eu não vou falar", adiantou-se Alacid ao perceber o gravador em minhas mãos. Compreendi a aflição do governador, mas ainda assim o interpelei. Eu queria repercutir o fato inusitado que presenciara e fui logo dizendo: "entendo, governador, mas o senhor cumpriu o protocolo, quem não o fez foi o presidente Figueiredo, que não falou com o senhor". E Alacid, sob o olhar reprovador em minha direção do deputado federal Osvaldo Melo, que estava ao seu lado: "não insista, Carlos, não vou falar". 

Figueiredo detestava Alacid porque ele apoiava o então líder da oposição aos militares, o deputado federal Jader Barbalho, candidato ao governo, que seria eleito na disputa contra o empresário Oziel Carneiro, do PDS, que tinha o apoio do regime. O coronel Jarbas Passarinho, a maior liderança dos militares, tinha uma velha briga com Alacid e não engoliu o que chamaria mais tarde de "traição" do governador, que preferiu trabalhar para eleger Jader a se submeter às ordens do Palácio do Planalto. 

Esse era Alacid Nunes, que governou o Pará por duas vezes em um dos períodos mais tensos e repressores da vida nacional. Dele se disse tudo: "sargentão", "ingrato", "corajoso", "truculento", e "democrata". Ou seja, um personagem de um período importante da história política paraense, com seus erros, acertos e contradições. Presumo, porém, que levou consigo para o túmulo um segredo jamais compartilhado com alguém sobre os reais motivos de sua briga e o rompimento com Jader e, o principal de tudo, sua versão sobre a inimizade visceral com Passarinho.

A última vez que falei com ele foi ano passado, num evento na Praça da Bandeira. Eu dirigia meu carro rumo ao Ministério Público, para entrevistar um promotor de Justiça, quando avistei Alacid no meio da praça. Decidi parar e abordá-lo. Ele me reconheceu, cumprimentou-me e surpreendeu com um convite: "você é um dos jornalistas que gostaria que escrevesse minhas memórias". 

Respondi-lhe: "vamos conversar sobre isso, é só marcar". O ex-governador deve ter lembrado da sugestão que eu havia feito a ele em 2004, na sede da Associação dos Municípios do Pará, entidade por ele criada. 

Se deixou a tarefa para outro jornalista, ou familiar, muitos fatos importantes virão à tona. 

                                       Alacid: video raro de entrevista à TV Tupi, em 1968





Um comentário:

  1. Foi a unica vez que Figueiredo acertou alguma coisa no seu governo: Alacid deveria ter sido preso pelo estupro da professora em Soure, que gerou o rompimento com Jarbas Passarinho pois a 'vítima' era mulher de um amigo de JP.

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