segunda-feira, 21 de setembro de 2015

"Esquadrão da Morte" em Belém. A denúncia do radialista Paulo Ronaldo que agitou o regime militar e os políticos do Pará, nos anos 70

O que o blog Ver-o-Fato publica abaixo - cedido do arquivo pessoal do jornalista Carlos Mendes - é um documento histórico, de um período de grande turbulência política no Pará, no começo dos anos 70, em pleno regime militar. Trata-se do inquérito policial em que o radialista e à época deputado estadual pelo MDB, Paulo Ronaldo Mendonça de Albuquerque, ou simplesmente Paulo Ronaldo, um mito da comunicação radiofônica até hoje insuperável, denuncia a existência de um "esquadrão da morte" dentro da Polícia Civil, em Belém. 

Com a então vigência da famigerada Lei de Segurança Nacional, editada pelos generais de plantão para calar políticos, jornalistas, radialistas, escritores, músicos, humoristas e quem mais se atrevesse a criticar o regime, Paulo Ronaldo enfrentou a censura, atraindo a ira dos militares, que odiavam o jornalismo crítico do dublê de radialista e deputado. 

No relatório abaixo, o delegado de Homicídios, Electo Reis, responsável pelo inquérito, diz que os policiais da então Delegacia de Furtos e Roubos (DFR) eram inocentes das acusações "levianas" de Paulo Ronaldo, que fez a denúncia no plenário da Assembleia Legislativa e em seu programa "Patrulha da Cidade", na Rádio Marajoara. Paulo Ronaldo, na verdade, mostrou provas, depoimentos à farta de familiares de vítimas do "esquadrão da morte".

Ele cometeu apenas um equívoco, que não desqualificou sua denúncia: apontou que uma das vítimas dos policiais, conhecido por "Indio do Maranhão" teria sido assassinado em "queima de arquivo", pelo sargento Barata, da Polícia Militar, às margens de um igarapé em Benevides. Na verdade, "Indio do Maranhão" apareceu depois, vivo, o que levou Paulo Ronaldo a responder a processo na Auditoria Militar - ele pegou seis meses de cadeia, condenado, e chegou a sofrer um infarto na prisão.

Paulo Ronaldo tinha como provas o testemunho do caseiro do lugar onde eram praticadas as torturas e fotos de pessoas espancadas. Esses documentos desapareceram na ocasião do processo. O jornalista Carlos Mendes tem em seu arquivo a íntegra do processo, os inquéritos das Polícias Civil e Federal, as notas taquigráficas dos acalorados debates na Assembleia Legislativa, e as peças da defesa nos tribunais militares elaboradas pelo brilhante advogado Odilson Novo, falecido no começo dos anos 80, como o próprio Paulo Ronaldo.

Que se foi no dia 21 de setembro de 1980, data em que se comemora o Dia do Radialista. Leia com atenção o histórico documento. O blog irá publicar outras peças do processo, oportunamente, inclusive a defesa e os pronunciamentos de Paulo Ronaldo. Que, aliás, foi um fenômeno eleitoral em sua época, desbancando velhas raposas partidárias.

















5 comentários:

  1. Caro Mendes,
    Naquele 21 de setembro de 1980, se não me falha a memória, o editor de polícia de O Liberal era o Nélio Palheta que vivia às turras com os repórteres à sua disposição na editoria. Francisco Assis(que escrevia a coluna Peso da Lei), o velho Gouveia e seu irmão o competente Ítalo suavam a camisa com o Nélio. Morto Paulo Ronaldo, o Cláudio Sá Leal mandou me escalar para cobrir o enterro de Paulo Ronaldo, que abalou Belém, com multidões em Santa Izabel, desmaios no cemitério, histeria e tudo o mais. Parabéns pela lembrança. Outra coisa, voltei a reportar Paulo Ronaldo, desta vez, uma matéria macabra demais. Ladrões de túmulos estavam profanando sepulturas, para examinar arcadas dentárias em busca de obturações de ouro. A de Paulo Ronaldo, foi uma delas. O crâneo, estava jogado fora do túmulo. Deu a maior polêmica. A foto, foi de Pedro Pinto.
    GRande abraço,
    Agenor Garcia
    jornalista.

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  2. Garcia, saudades de ti, cara. Bons tempos aqueles de jornalismo intenso, em que se investigava as coisas e havia rigor nas editorias. Obrigado e volte sempre por aqui. Vou publicar outras partes desse processso. No total, são 255 páginas, em corpo 1. Imagine ter de publicar tudo. Se bem que é um documento importante sobre os anos de chumbo que vivemos. Volte sempre, amigo. Um abração. Carlos Mendes

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    1. Caro Mendes,
      Hoje atuo como coordenador de comunicação junto à secretaria municipal de Meio Ambiente, em Parauapebas. Continuo morando em Marabá, onde estou desde o governo de Haroldo Bezerra. Leio com atenção suas postagens, apesar de tantas vicissitudes que enfrentas e enfrento nesta arte de ser jornalista no Pará.
      Grande abraço,
      Garcia

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  3. Alguma forma de conseguir a vinheta do programa do Paulo Ronaldo se tiver eu gostaria de matar essa saudade

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