domingo, 13 de setembro de 2015

Eles contam dinheiro. E nós, pagamos a conta

Os sucessivos governos paraenses dos últimos 35 anos não têm sabido traduzir em desenvolvimento para todos o resultado da exploração das riquezas abundantes – porém esgotáveis – que se espalham por seu território. Grupos privados, nacionais e multinacionais, como Vale, Alcoa, Hydro, Imerys, Mineração Rio do Norte, além das gigantes do alumínio, aumentam cada vez mais seus lucros, mas o que deixam de impostos no Pará? O trem da Vale funciona 24 horas sem parar, e o que fica por aqui, depois que a montanha de dinheiro é contabilizada?

Resposta: quase nada. Ou melhor, ficam as migalhas. E, é claro, os problemas sociais e ambientais no entorno das jazidas de onde tais riquezas são extraídas. Em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, já ouvi pessoas dizerem que no Pará, em razão das imensas que o Estado abriga, a vida deve ser muito boa, com fartura de empregos, água, energia elétrica, boas estradas, madeira e frutas, já que moramos em terras que abrigam a maior floresta tropical do mundo.

Só quem nunca pisou na região é capaz de pensar de maneira tão equivocada. É certo que, por estarmos sentados sobre tanta riquezas, deveríamos viver no melhor dos mundos possíveis. A realidade, contudo, é outra, bem diferente. Os grandes grupos econômico-financeiros que foram atraídos para o Pará aqui receberam, em troca da geração de empregos, generosas benesses fiscais. Isenções de ICMS e de outros impostos, com prazos a perder de vista.

Nossos governantes, se pensaram que bastariam empregos para fazer a felicidade geral dos paraenses e dos migrantes que para cá vieram, apostando que com sua força de trabalho estariam produzindo desenvolvimento e bem estar, cometeram o grave erro de poupar essas grandes empresas de dividir com o Estado as responsabilidades pelo que ocorre nas cidades onde os problemas sociais se acumulam. A Vale, por exemplo, já disse e repetiu, que ela cuida da exploração dos minérios. Da saúde, educação, segurança pública e saneamento deve cuidar o Estado, com suas políticas específicas para cada setor.

O recado dessas empresas é direto. Se o Estado não é capaz de atender às carências e reivindicações de seu povo, problema do Estado. Ele que dê seu jeito. Governantes foram eleitos para isso e nos discursos de campanha eleitoral tais promessas foram atiradas no colo da população.

Pirotecnia - Na semana passada, em sua página no Facebook, o governador Simão Jatene, numa evidente pirotecnia política, declarou que muitas das principais questões do Estado “tem raízes além das nossas fronteiras”. Ele quis dizer, com isso, que decisões tomadas pelos governantes federais, encastelados no Palácio do Planalto, em Brasília, deixam “marcas graves e por décadas no Pará”. Jatene se referia ao marco regulatório da mineração, que está para ser votado em Brasília, no Congresso Nacional.

O governador defende que sejam fixados na nova legislação “pontos que contribuam para que a exploração mineral sirva também a sociedade local e não apenas a União - ajudando a equilibrar as contas externas - e as empresas, melhorando seus lucros”. Jatene sabe que o Pará “nem de longe é compensado pela exploração dos recursos naturais em seu território”. E prega que todos devemos lutar para transformar os chamados "grandes projetos", inclusive minerais, em” vetores de desenvolvimento regional, reduzindo a pobreza e a desigualdade, contribuindo para o financiamento de investimentos que não tornem em vão a exaustão de nossos recursos”.

Ótimo discurso, mas vazio na essência. Pergunta-se: por quê o PSDB, partido do governador, calado estava, calado ficou, quando os tucanos, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, criou a famigerada Lei Kandir, que desonerou as exportações minerais, atingindo o Pará com uma sonora bofetada no rosto? O governo Lula, os petistas, e Dilma, abraçaram a ideia do PSDB, porque a balança comercial brasileira é o que importa. Os minérios do Pará ajudam a salvar o país, em meio ao turbilhão da crise, enquanto nosso governador chora sobre o leite que seu partido ajudou a derramar.

Pobre Pará.



_____________________________Bastidores________________________________
*A Polícia Federal se prepara para deslanchar uma operação de grande porte entre Marabá e São Félix do Xingu. Peixes graúdos devem cair nessa rede.
*Engana-se quem pensa que as agendas do prefeitos de Parauapebas apreendidas pelo Ministério Público, restringiam-se a consultas com “caboclos” da Umbanda. A coisa vai além, muito além, do que imagina a vã filosofia da classe política na região.
*A Vale continua batendo o pé, embora não com tanta força como antes, na negociação com o governo do Estado, no que diz respeito à revisão de algumas benesses que sempre recebeu para explorar os minérios do Pará. Ela ameaçou ir embora do Pará, dizendo que não iria pagar R$ 1 bilhão que deve.
*Quem conhece os meandros políticos dessa negociação entre a Vale e o Estado diz que o clima de tensão está esfriando entre as partes. E mais: a Vale pode ser gulosa por lucros, mas não é burra de ir embora, abandonando seus projetos. Seria cometer suicídio econômico ao matar sua galinha de ovos de ouro. Ou de ferro.
*O procurador de Justiça Nelson Medrado já repassou ao promotor Hélio Rubens, responsável pelas investigações, um DVD com revelações bombásticas sobre malfeitos na Câmara Municipal de Parauapebas durante a gestão do agora afastado vereador Josineto Feitosa. Até escritórios de advocacia de Belém estão no rolo.
*A riqueza passa. O apito do trem, fica. 

(Da coluna Carlos Mendes, no Correio, o jornal de Carajás)

                         O minério sai, mas a miséria fica. É preciso mudar isso.

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