VER-O-FATO: A crise da borracha ( a maldição centenária ). O livro de Ramiro Nazaré

sábado, 12 de setembro de 2015

A crise da borracha ( a maldição centenária ). O livro de Ramiro Nazaré


 Ramiro Nazaré *

Com cerca de 420 paginas, é o titulo de nosso nono livro. É também o que sai da temática de Logística de Transportes na Amazônia, de que tratam os anteriores.

I- Preâmbulo

Em 2012 completou 100 anos do início da chamada Crise da Borracha, quando a Malásia, com clones furtados da Amazônia, entrou no mercado mundial vendendo borracha à preço muito inferior ao até então praticado pela Amazônia e países vizinhos. Agora, na renovação dos seringais malasianos, o governo brasileiro deu os clones e pôs a Embrapa à disposição dos proprietários desses seringais, cidadãos ingleses e americanos. Tirei de todos os meus escritos, a referência ao “Ladrão do Fim do Mundo” como se pode entender tamanha inconsequência de decisão, se ao mesmo tempo o BASA, que superintende –apenas legalmente-, as coisas de borracha na Amazônia, não aprova projeto de plantio de seringueiras de empresários regionais? 

Será que o BASA está cuidando também, tal como a Embrapa, dos interesses da Malásia e não vai deixar que eles tenham concorrentes? Parece que a realidade dos acontecimentos não se alinham muito bem entre si. Ao fim de mais 10 anos, na região abrigada pelos estados de São Paulo, Mato Grosso e Goiás, estarão plantadas l5 milhões de seringueiras, para o que muito contribuíram, o Basa e o Banco do Brasil. Isso veio atrapalhar os eternos planos do empresariado regional de liderar o plantio e atuar fortemente nas “ áreas de escape”, como aliás recomendou, enfaticamente, o seminário/workshop “Seringueira na Amazônia: situação atual e perspectivas”, realizado em Belém do Pará , em 1998, com a participação dos principais cientistas e os pesquisadores há muito envolvidos no problema da seringueira. 

Na prática, empresários e bancos oficiais se associaram em torno da região sudoeste do país, onde também está situado o mercado consumidor dessa matéria prima. Motivados pela situação da economia amazônica, que deu origem ao “tomei um Ita no Norte e fui pro Rio morar” do imortal Bily Blanco, que sintetizou o grande movimento emigratório da população amazônica, o governo federal tomou alguma providência mitigadora? Ao contrário, o famoso “Discurso de Getúlio Vargas” limitou-se a apresentar um sem número de providências que o tempo se incumbiu de esboroar. 

Novamente a Nação se volta para a Amazônia, num programa chamado de “Batalha da Borracha”, que em nada foi estimuladora de progresso social. Ao contrário gerou o maior morticínio coletivo da população nortista e nordestina do país. Que restou hoje? Tão somente dois órgãos públicos voltados para o seu próprio umbigo. Ao contrário, são partícipes em cumplicidade com o extrativismo devorador dos recursos do solo e subsolo regional, que em nada beneficiam a comunidade da região. 

II- Os acontecimentos

Ao cessar, em 1912, essa atividade, por total impossibilidade de enfrentar os concorrentes malasianos, também teve fim a fase áurea da borracha na qual Belém e Manaus ostentavam luxo e riqueza tal como nas principais capitais europeias. A lei de Talião entrou em atividade. O suicídio de muitos empresários que atuavam como “aviadores”, deveu-se ao fato de que a nova realidade se chocava com a ética que então marcava o padrão de honradez do mundo dos negócios – a garantia do “fio de bigode” para com as dívidas. O “aviamento” às necessidades de consumo e de trabalho dos seringueiros, cujo valor só depois da colheita eram ressarcidos, ainda assim graças aos vultosos empréstimos de bancos privados, na sua totalidade de matrizes no exterior. 

Concomitante à queda do preço, em decorrência da entrada no mercado da borracha da Malásia produzida com nossos clones furtados, tem início a atividade dos “atravessadores” que chegavam ao seringal e mediante pagamento levavam tudo que estava estocado. Meu bisavô morreu em nossa casa, vivendo pessoalmente uma crise de falência. Muitos de seus conterrâneos, que na fase áurea respondiam com seus faustos recursos pelas noites de encantamento de Belém e Manaus, pelo Museu Goeldi e o Bosque Rodrigues Alves, terminaram seus dias na mais completa miséria. Alguns outros, todavia, deram origem aos primeiros investimentos industriais que mitigaram a penúria, sobretudo do poder de arrecadação do governo, o que por sua vez propiciou o surgimento das dissidências políticas, que chegaram, infelizmente-, até os dias atuais.

Muitos outros o fizeram, também, tanto em Belém como em Manaus. Os anos de bem-aventurança não se caracterizaram pela imagem que é impingida às novas gerações. Foram anos de muito trabalho e competência que nos deram as indústrias de tecelagem de algodão, cordoaria de fibras - muito antes da chegada das fabricas de juta e malva-, cervejaria, curtumes, pneumáticos, estaleiros, sapatos, pregos e parafusos, cigarros, alimentos, sabões, cerâmica, joias, medicamentos, hotelaria, construção civil e muitas outras, que inclusive receberam medalhas de ouro em exposições internacionais. Esses homens não eram engenheiros, nem economistas, e nem financistas. Eram apenas comerciantes dotados de uma fé inquebrantável na força espiritual que fez as grandes nações do mundo de hoje, já na enésima geração de empreendedores, o que infelizmente não ocorreu na Amazônia. 

Quando se olha as fotografias do espetáculo dantesco da exploração do ouro em Carajás, e se tem conhecimento de que o governo que a tudo assistia sem nada fazer desse e ainda recebia seu “naco” de espoliação dos mineradores improvisados, que ao chegar nem sabiam o que era um ”batel”. As realizações que foram feitas pelos descendentes desses primeiros empreendedores, sob tutela dos órgãos federais criados para gerir os recursos, e sem ter especialistas em nenhuma das especialidades referidas pela lei, para a analise técnica, negocial, comercial e empresarial. O retumbante fracasso da maioria esmagadora dos empreendimentos aprovados está a demonstrar claramente que isso não ocorreu! Em muitos o problema financeiro em franco desajuste entre o projetado e o aprovado realizar pelas liberações dos recursos, levaram a simples paralisação das obras civis ou da encomenda de máquinas. Mas a implantação de um projeto de seres vivos, sobretudo do reino vegetal não permitiria tal providência.

III- A motivação

Foi para marcar um século dessas ocorrências devoradoras da poupança acumulada que o Conselho Regional de Economia do Pará, às voltas com a realização do IV ENAM – Encontro dos Economistas da Amazônia-, houve por bem adotar o fato centenário para ser a temática das plenárias, mormente tendo em vista a sensibilidade generalizada, do abandono sistêmico da região pelo poder central, e do pífio e vergonhoso resultado da ação de seus dois órgãos de ação regional: Sudam e Basa. Neste ponto convém ter em mente que o substantivo centenário é aqui empregado como medida temporal de ocorrência permanente, isto é, ao longo de todos os dias de cada ano e não o espaço integral de um ano após outro.
A capa do livro que tem a inovadora decisão de dar-lhe dois prefácios, de executivos e proprietários exitosos em seus negócios, geneticamente com descendência de imigrantes- o que foi proposital por extremamente necessário para coonestar a tese principal do livro: a defesa moral do empresário de então, ignorantemente ainda que jocosa, sádica, maliciosa e indevidamente eram apelidados de “Barões da Borracha” .Além das falas em plenário, em que os simpatizantes de um sistema que praticamente já não existe mais nos países do mundo que são importantes considerar, também nas colaborações que foram solicitadas para compor os anais teóricos, inclusive de um que apresentou uma tese sobre borracha valendo-se de quadros estatísticos que tabulam dados dos fenômenos borracha e plástico, conjuntamente! Por isso inscrevemos, logo na capa, nossa discordância ao chamar a atenção do leitor com a observação de conteúdo, de “algumas interpretações diferenciadas”.

Basicamente, o livro tenta desmistificar a aleivosia mostrando que foram eles que introduziram as primeiras e importantes manifestações industriais da Amazônia, a par de mandarem lavar as cuecas na Europa. Há um trabalho inédito e inacabado que mostra ser a arrecadação de tributos da época muito superior a de hoje. Teatro da Paz e Teatro Amazonas, Porto de Belém e Porto de Manaus foram, possíveis graças a economia portentosa que aqueles imigrantes souberam desenvolver. Um breve repasse de coisas brasileiras da atualidade, tão verdadeiras quanto chocantes, pretendem mostrar ainda mais a validade do repto à aleivosia. O retumbante e colossalmente desonesto sistema de “Incentivos Fiscais” foi causa e não efeito. Nova desdita parece dizer que ainda não aprendemos a lição. Poucos empreendimentos sobraram da hecatombe que se abateu em toda região. Alguns empreendimentos que restaram dessa fase- poucos e bons-, tem a característica interessante de não terem usado o sistema de IF no aspeto financeiro. O fizeram apenas no que respeita aos benefícios de isenção tributária. O livro mostra que em 100 anos restou para a Amazônia:

- o desmatamento indiscriminado;
- os gravíssimos e dolorosos acidentes de escalpelamento;
- o fracasso político do Tratado da Panamazônia;
- a exploração desenfreada dos minerais, que nem o exemplo real da
exploração do Manganês do Amapá, em que apesar do fim tão melancólico
não foi capaz de motivar as autoridades para sua não repetição;
- um monte de arsênico, rejeito da exploração do manganês no Amapá;
- várias jovens deformadas em pleno viço da juventude;
- os acidentes de navegação, provocados pela máquina mortífera mas extremamente necessária, que deu origem a um espetáculo, denunciado no livro, de exploração de cadáveres com fotografias e notícia em jornais:
- a continuidade do escalpelamento, que devido a dificuldade decorrente do nível cultural dos responsáveis requer alguma decisão que não dependa do proprietário. Lembro, se possível, que omotor já venha de fábrica de forma irremovível:

Por outro lado, pode-se questionar a seriedade de algumas atitudes mais burlescas do que importantes, que atestam a continuidade da desfaçatez em lidar com assuntos tão sérios e dolorosamente de ação sobre os humanos. Com muita pompa e circunstância- peço desculpas outra vez à memoria de Strauss, aconteceu recentemente com muita cobertura da mídia e correspondente passividade das elites empresariais e governamentais:

  1. Financiamento pelo ARFMM, à ribeirinhos, que jamais teriam condições de ser financiados, e que nunca sequer puseram seus pés num estabelecimento bancário. Vale acrescentar que muitos nem sabem o que isso significa;
  1. A ocorrência de uma rumorosa reunião havida em Manaus, logo em seguida à ocorrência de mais um acidente fluvial, com muitas mortes, promovida por órgão do Poder Judiciário, para debater o que já era bem conhecido e debatido, ficando até hoje tudo como “era dantes no quartel de Abrantes”;
  2. mudança do porto de mar do “Corredor Centro Norte de Exportação” do Pará para o Maranhãoou para o Amapá;
  1. A constatação de que o pior IDH do continente é o de um município na Amazônia. E com certeza vai permanecer só na constatação;
  2. Já agora, com o trabalho dos dois jornalistas que criaram a terminologia de “Favela Amazônia”, o conhecimento do espantoso avanço da maior praga social, a droga, atingindo até mesmo os povos indígenas, beneficiários do sistema da Bolsa Família !
  3. A irritante e indecorosa passividade, dando vez a inutilidade dos órgãos federais que atuam na área do crescimento econômico.

A conduta dos que rotulam os imigrantes faz crer que logo vão atacar os imigrantes dos séculos XVII e XVIII e seus descendentes, acoimados de serem os responsáveis por ‘100 anos de solidão’, a mesma do imortal autor colombiano, prêmio Nobel de literatura.

Mas o pior do pior mesmo está num fato que enriqueceu muita gente e durante muito tempo, e a menos que eu esteja mal informado , continua enriquecendo,! A ”pela” ou ”pele” da borracha que o produtor vendia ao Basa, a única instituição que a poderia comprar e vender ao setor industrial brasileiro, o principal comprador, graças ao legalmente estabelecido “monopólio da borracha”, era dividida nas seguintes partes denominadas: Fina, Entre-fina, Sernambi Virgem e Sernambi Rama".

O Banco pagava ao produtor de acordo com a classificação acima, que indicava tão somente o percentual de água contido na borracha. A qualidade era igual em todas as partes. A passagem da pele pela estufa eliminava toda a agua.

Acontece que o produtor não recebia valor igual para todas. Havia um percentual de desvalorização - entendam bem, desvalorização -, progressiva da Fina ao Sernambi Rama. Quanto foi escamoteado ao seringalista que quando era usado o fumeiro para a coagulação morria cego, que se instalava progressivamente? E, resta perguntar, se o Basa adotava o mesmo critério na venda aos industriais de São Paulo !

Para completar, a descoberta de um medicamento eficaz para o tratamento da úlcera, usado internacionalmente, não ocorreu em nenhum centro de ensino e pesquisa amazônico. Enfermidade dilacerante e de intenso odor nauseabundo, em que o cometimento quase sempre levava à criação de um problema social intransponível no seio da família, que acabava por dar lugar à desagregação da mesma. A resultante era o internamento hospitalar, por longo espaço de tempo, quase sempre ate a morte do paciente, gerando problemas de inexistência de vaga e custos na longa ocupação nas enfermarias, além da desagregação familiar referida. 

É um medicamento que consegue em muito pouco tempo cicatrizar a ferida, tirado do latex da seringueira. Objeto de publicação em revista científica, foi desenvolvido pela Universidade de São Paulo, através de trabalhos da Universidade de São Carlos. É pouco lisonjeiro, no ranking das universidades brasileiras, a posição que ocupam as universidades da Amazônia, que em nenhum dos quesitos aferidores justifica os artigos alvissareiros publicados em jornal e revista de órgão associativo, que circulam em Belém.

*Ramiro Fernandes Nazaré é economista, professor e escritor

Um comentário:

  1. Caro Mendes,
    Uma pena que o professor Ramiro Nazaré tenha creditado a Billy Blanco a autoria de conhecida composição de Dorival Caymmi, quase um hino a tantos belemenses que viajaram num Ita ( que vinha sempre no início do nome dos navios de antiga empresa de navegação costeira) rumo ao sul brasileiro.Que aliás, também passava em Salvador rumo ao Rio. Pois é, Billy esteve envolvido num escândalo financeiro apurado pela Polícia Federal, no Basa, esse banco aí que financiava a borracha naqueles tempos delirantes da riqueza na Amazônia. De mortuis nil nisi bonum, diz o brocardo latino, porém.
    Grande abraço
    Agenor Garcia
    jornalista

    ResponderExcluir