sábado, 8 de agosto de 2015

Sangue, morte e horror vendem jornal? O Pará tem (más) histórias







Com a postagem sob o título “ Um dia sem sangue”, o jornalista Lúcio Flávio Pinto propõe em seu blog que os jornais “Diário do Pará” e “O Liberal” dediquem um dia para produzir matérias sérias sobre aquilo que se convencionou chamar de reportagem de polícia.



Segundo a sugestão de Lúcio, os dois jornais paraenses utilizariam seus melhores repórteres ou convidariam jornalistas para que durante um dia fossem cobrir os acontecimentos de outra perspectiva. “Não como extensões da polícia ou do caixa da empresa jornalística, mas em busca da dimensão humana dos fatos e usando o rigor na apuração”, pondera.



Mas – e sempre tem um “mas” para estragar boas ideias -, o próprio Lúcio se pergunta: “os leitores aceitariam voltar à mediocridade atual?”



A propósito dessa oportuna provocação do Lúcio, deixa eu contar um fato da extinta, na fase Rômulo Maiorana, “Folha do Norte”, entre 1990 e 1993. Walmir Botelho – falecido no mês passado -, que havia me chamado para chefiar a reportagem do jornal, me perguntou se eu tinha alguma ideia para fazer da “Folha” não um mero jornal para fazer frente a qualquer avanço do “Diário do Pará” que pudesse ameaçar a então folgada liderança de jornais impressos no Pará exercida por “O Liberal”.



Fui claro para o Walmir: “só temos uma saída, é carregar no noticiário policial, mudando a linguagem e caprichando nos títulos da página, puxando sempre para a manchete da “Folha”. Seria algo, numa linguagem mais paraense, ao que fazia o jornal paulista Notícias Populares, o conhecido NP.



Em São Paulo, o NP era sensacionalista e capaz de pegar o assassinato de um jardineiro, com várias passagens pela polícia e tascar a seguinte manchete: “Flores no Inferno”.



Patam matava, mas foi derrubado por manchete da “Folha”



Na reportagem policial da “Folha do Norte” eu tinha o Antônio Gouveia, irmão do Ítalo Gouveia – que trabalhava em “O Liberal” - e o Francisco de Assis, que durante muitos anos fez a coluna “Peso da Lei” no próprio jornal do Grupo Liberal. De quebra, eu ainda tinha na reportagem o Raimundo Oliveira, repórter, e que também, na falta do fotógrafo, quebrava o galho; o José Ribamar dos Prazeres, que ganhou um prêmio Esso nacional por cobrir um linchamento de dois presos retirados da cadeia pela população de Tomé-Açu; o repórter Biamir Siqueira e o fotógrafo Jorge Nascimento, sempre nas rondas policiais.



Com essa equipe da pesada – de fácil acesso a boletins policiais, os conhecidos BOs e às fontes do poder na Secretaria de Segurança Pública – não foi difícil montar a central de manchetes que elevaram a tiragem da “Folha do Norte” a números elevados, capazes de incomodar até a própria direção do Grupo Liberal.



Eram manchetes e mais manchetes, com os distribuidores de jornal, “baderneiros “, no jargão das oficinas, os jornaleiros, todos em festa. Uma dessas manchetes, sobre um grupo de extermínio liderado por policiais militares do então Patam, vendeu jornal feito água.



Cadáveres apareciam boiando no rio Guamá e Baía de Guajará, mas os jornais “A Província do Pará”, “Diário do Pará” e “O Liberal” davam os títulos convencionais, do tipo “corpo é em encontrado no rio”. Não se mexia com policiais criminosos e nem se levantava suspeitas sobre quem comandava o extermínio em Belém de pretos e pobres.



A Folha do Norte explodiu com a manchete: “ FOI PÁ,PÁ TAM “. Na matéria, até os nomes dos militares que participavam do grupo de extermínio. Os jornaleiros foram ao orgasmo, gritando a manchete pelas ruas. A oficina teve de rodar uma segunda remessa, mais de 8 mil exemplares à época. O Patam, meses depois, foi extinto.



Sangue, cadáver, matança – fórmula hoje empregada pelo Diário do Pará – que não sabe mais como se livrar disso, sob pena de despencar na tiragem de exemplares, o que já ocorre de forma preocupante, e leva o jornal a ser distribuído gratuitamente em lojas e postos de gasolina, como também acontece com “O Liberal” - vende muito jornal, mas chega o momento em que cansa, mesmo o mais sádico dos leitores.



Contudo, enquanto o apetite dos leitores não arrefece, acabar com as manchetes de impacto, sensacionalistas, dá problemas. E muitos, principalmente entre os “baderneiros” e pessoal das bancas de jornal. A direção do Grupo Liberal estava preocupada que a “Folha”, que já havia engolido o “Diário do Pará”, também começasse a superar a tiragem do próprio “O Liberal”, o carro-chefe impresso do grupo.



A suicida era amigona do dono do jornal



Certo dia, veio a manchete que soou como bomba dentro da empresa, muito mais do que nas ruas: “LOUCA, NUA E MORTA”. Em três linhas de cinco toques, no corpo 72, caixa alta, o maior do jornal. Na matéria, o relato do suicídio de uma socialite de Belém. Mulher que tinha grana e muitos vícios, entre esses a compulsão por jogo de baralho até altas horas da madrugada, bebida e remédios para depressão.



A mulher, totalmente nua, jogou-se, se não me engano, do 15º andar. Estatelou-se sobre uns ferros pontiagudos que ornamentavam a fachada do edifício. O fotógrafo do jornal não perdeu um ângulo.



E quase perde, também, o emprego. No mesmo dia, após a circulação do jornal, a direção da empresa decretou que, a partir daquela data, a “Folha” iria maneirar nas manchetes pesadas da página policial até que as coisas “voltassem ao normal”. A tal mulher, suicida, na verdade, era amiga de um dos donos do Grupo Liberal.



A diretoria da empresa, com a decisão, resolveu dois problemas: livrou “O Liberal” de ter um concorrente no próprio quintal de casa com fôlego para ultrapassá-lo, com aquelas manchetes abusadas, além de aquietar os setores mais conservadores de Belém, dentre esses a Igreja Católica. Padres e o arcebispo de Belém, que tinham colunas em “O Liberal”, benziam-se ao receber repórteres da “Folha do Norte”.



Passeata de jornaleiros pediu a volta das manchetes pesadas



Faltou, porém, combinar com os vendedores da “Folha”. Eles perceberam que o jornal havia esfriado e ficaram revoltados com as manchetes comuns, para eles um ultraje às vendas. Resultado: foram – pasmem os leitores deste blog – em passeata até a porta do Grupo Liberal, que à época funcionava na rua Gaspar Vianna com a 1º de Março, protestar contra a nova linha editorial, reclamando que o jornal nem dava mais chamadas de crimes na capa.



A decisão da empresa foi mantida, para desespero dos jornaleiros, que tiveram seus ganhos reduzidos com a queda na tiragem da “Folha”. Recordo que Cláudio Sá Leal – um dos mestres do jornalismo paraense – chegou a comentar com o Walmir Botelho, na minha frente, durante um papo no gabinete dele em “O Liberal”: “ eu não disse pra vocês que isso ainda ia dar problema?”. Leal dizia que os Maiorana pagaram para ver, mas que a brincadeira havia acabado.



Em resumo, para concluir e corroborar o temor de Lúcio Flávio: os leitores, instigados em seus baixos sentimentos, pagam para ver manchetes sensacionalistas, sobretudo as impressas com sangue, drogas e sexo ( sem rock and roll) .



Resta saber, caro Lúcio, até onde vai a capacidade – ou estômago - desses leitores de suportar tanto bombardeio diário da imprensa. O certo é que um dia isso estoura. Ou a cabeça dos leitores, ou o próprio jornal sensacionalista. E nem será preciso uma louca, nua e morta impressa na capa colorida.



Bastará a caneta implacável do dono do jornal decidir pela morte das manchetes. Mesmo que isso lhe custe o ódios dos jornaleiros.

2 comentários:

  1. Lia muito o jornal "Folha do Norte"...foi um jornal que marcou época!

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  2. Época "áurea" de quem cobria fatos policiais. Hoje em dia, tenta-se tirar leite de pedra do que já se tornou corriqueiro. A Folha do Norte, apesar de eu não ter vivido a época já no dia-a-dia do jornalismo, saiu de cena no seu grande auge (acredito) e penso que poderia, assim como os jornais que temos em atual circulação, ter que se reinventar. Tudo cansa.

    O grande "x" da questão é saber se as percepções de nossos atuais "chefões" do jornalismo impresso condizem e se alinham com as do leitor, cada vez mais saturado e exigente.

    (Mettran Senna)

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