domingo, 30 de agosto de 2015

Pará: um estado ingovernável? Balela.

É um discurso recorrente, sobretudo nos palanques eleitorais, que o Pará é um país dentro de um Estado. Não se sabe se pelo tamanho ou pela quantidade de problemas não resolvidos. Se for pelo segundo motivo, estaríamos diante de um Estado ingovernável. Traduzindo: um Estado nas mãos de administradores incompetentes, incapazes de atender às reivindicações de sua população de quase 8,5 milhões de almas.
 
São habitantes que pagam suas taxas e impostos e querem escolas de qualidade, água tratada, energia elétrica em todas as casas, estradas pavimentadas, saúde decente para todos, oportunidades de trabalho, terra para plantar, além de transporte e segurança pública.

A verdade é que, sai governo, entra governo, essa sensação de ausência do Estado é percebida nas regiões mais distantes do centro de poder, localizado na capital, Belém. Assim, o Estado ingovernável seria aquele onde a ausência de governo se faz presente onde os governados mais dele necessitam e nas horas de maior angústia.

Nas campanhas eleitorais, a presença física de governantes e dos que disputam o poder, com seu séquito de candidatos, bajuladores, organizadores de caminhadas e comícios é uma constante que resvala para a chatice. A toda hora surgem promessas de uma vida melhor, de fazer isso e aquilo. Em troca do voto, eles mentem, e muito. Depois que se elegem, porém, rapidamente esquecem de tudo o que prometeram. E somem do mapa.

Como repórter residente em Belém, já percorri nos últimos 40 anos todas as regiões paraenses e pude sentir um grande sentimento de abandono com relação ao atendimento de tantas carências. Isso é mais visível principalmente nas pequenas cidades com menores contingentes populacionais. Justamente as que mais necessitam de investimentos. Os serviços públicos ou são precários, ou inexistentes.

Alguém pode perguntar: e as prefeituras, o que fazem? Na maioria dos casos, com seus orçamentos minguados, elas funcionam como ente assistencialistas, suprindo necessidades de seus habitantes que caberiam ao poder central, em Belém e Brasília, para onde vão as maiores fontes de arrecadação.
A constante romaria de prefeitos ao gabinete do governador do Estado, em Belém, é a prova de que os municípios ainda dependem dos repasses do FPM – poucos municípios são autossuficientes para caminhar com as próprias pernas, como Parauapebas, Canaã dos Carajás, Paragominas e Barcarena, para ficar apenas dos que guardam enormes riquezas minerais em seu subsolo – para sobreviver.

As populações que mais sofrem com a ausência do Estado, de Marabá a Conceição do Araguaia, de Eldorado dos Carajás a São Félix do Xingu, de Altamira a Faro, ou de Ponta Pedras a Melgaço, neste último o pior índice de desenvolvimento humano do Brasil, percebem uma coisa que se sente também na capital: o Pará patina, avança a passos de tartaruga, para levar seus serviços às regiões longínquas, enquanto os problemas chegam a cavalo ao homem que tem a chave do cofre e a caneta para decidir onde pretende investir o dinheiro público.

Padecemos de uma esquizofrenia administrativa: um dos estados mais ricos do país é o mesmo que tem um povo com os piores índices de qualidade de vida. Até quando seremos obrigados a conviver com essa contradição?

Da coluna "Carlos Mendes", publicada em 27 de agosto no "Correio, o jornal de Carajás". 
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário