segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O jornalista aviltado no Pará. As cartas do cinismo.



A onda de demissões na imprensa do Pará tem atingido em cheio a qualidade das reportagens produzidas. Isso ocorre desde o ano passado em jornais, emissoras de televisão, rádios, e também em assessorias de órgãos públicos. Jornalistas experientes, que não perderam fontes nem a indignação – esta última fundamental para alicerçar a coragem na denúncia contra malfeitos que ferem o interesse público – estão sendo substituídos sem qualquer explicação decente.



O pior é que a canetada de algum chefinho, chefete ou chefão, como já deu para perceber, não é para enxugar a máquina em época de crise econômica igual a que vivemos, ou mesmo livrar-se de um ou outro jornalista incômodo, que “não veste a camisa” política ou não forma no cordão de bajuladores.



É algo mais sórdido: é o aviltamento da profissão, colocando na rua profissionais de notória qualidade de texto e credibilidade social, substituindo-os por novatos que se sujeitam a ganhar menos, trabalhar mais e ouvir desaforos calados.



Evidente que esse é apenas um aspecto da crise do jornalismo impresso, televisivo e radiofônico. Há outros, como a briga intestina entre os dois principais jornais de Belém, onde a maior vítima é a verdade dos fatos – sempre contraditória nas manchetes de um e de outro – e a falta de respeito aos leitores, o que se traduz na queda de venda nas ruas e nas bancas.



Não é de admirar que o resultado disso é a cada vez maior migração de leitores para as mídias sociais, notadamente os blogs e sites, que estão substituindo , com vantagem, a imprensa escrita, pela maior liberdade de que desfrutam para abordar temas polêmicos , livres das teias e peias que engessam os jornalões movidos por  interesses corporativos, político-partidários e econômicos.



Alguns dirão que poderia ser um problema restrito apenas aos jornais “O Liberal “ e “Diário do Pará, empenhados numa guerra autofágica sem limites ou trégua. Não é. Na Comunicação do Estado está ocorrendo o mesmo fenômeno. Dispensam jornalistas tarimbados para colocar em seu lugar neófitos que sequer conhecem os meandros e os canais de comunicação com a imprensa e acabam enrolando e colaborando com a falta de informações para a sociedade.



Citar órgãos seria perda de tempo. Em alguns, a eficiência. Em outros, porém, a mórbida falta de vontade, também conhecida por abulia. Lembro apenas de um caso, que também pode servir de ilustração para outros: o da demissão do jornalista Francisco Sidou. Ele caiu não porque fosse inerte, muito pelo contrário, já que atendia a todos os que o procuravam com gentileza e riqueza de informações em seus textos.



Sidou foi exonerado porque era da cota de um partido que havia rompido com o atual governo. Portanto, pouco importava a capacidade moral e intelectual dele. Não servia mais e pronto. Conheço outros profissionais que tiveram o mesmo destino. Uma indignidade sem tamanho. Não houve o menor respeito a esses profissionais.



É assim que, infelizmente, a banda toca na imprensa do Pará. Desafinada, mas toca. Para ferir os ouvidos dos leitores e da própria sociedade.


3 comentários:

  1. Parabéns pelo texto. Felizmente, ao ler seu blog – que só agora conheci –, percebo que novos horizontes se abrem na mídia paraense, apesar de toda essa atmosfera contaminada. Parabéns mesmo.

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  2. Parabéns pelo texto. Felizmente, ao ler seu blog – que só agora conheci –, percebo que novos horizontes se abrem na mídia paraense, apesar de toda essa atmosfera contaminada. Parabéns mesmo.

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  3. Obrigado, Chagas. Sei que você é um lutador pela boa informação, sem paixões ou partidarismo. Difunda o blog e não deixe de vir por aqui sempre.

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