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Linha de Tiro - 19/04/2018

domingo, 23 de agosto de 2015

Jornalista e guarda municipal: na profissão, prazer e frustrações


 
O que jornalistas e guardas municipais têm em comum? No ambiente de trabalho, no prazer da profissão, e nas suas frustrações, muitas afinidades. É o que revela um trabalho de Eduardo Pinto e Silva e Roberto Heloani, psicólogos paulistas das Universidade Federal de São Carlos, Universidade Estadual de Campinas e Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, sob o título “ Aspectos teóricos e metodológicos da pesquisa em saúde mental e trabalho: reflexões a partir de uma análise comparativa do estresse em jornalistas e guardas municipais.

Embora realizada em 2007, a pesquisa, que ouviu 44 jornalistas e 176 guardas municipais, mantém sua atualidade, porque as relações de trabalho nos dois ambientes, o jornalístico e o policial, não mudaram. Pelo contrário, hoje estão piores.

Na pesquisa com jornalistas, feita por Heloani, intitulada “Mudanças no mundo do trabalho e impactos na qualidade de vida do jornalista”, verificou-se que sua vida pessoal é geralmente precária, com falta de relacionamento familiar por conta das excessivas jornadas de trabalho e vínculos afetivos que se desfazem rapidamente. Eles trabalham em quase todos os finais de semana, mas, em compensação, resistem bem ao estresse. Dedicam-se, inclusive, com paixão à profissão e nutrem por ela uma relação de amor e ódio.

“Nas redações, o ritmo de trabalho a que se submetem é estafante, com jornadas de doze horas (às vezes até mais), estando expostos a assédio moral, sexual e ao rígido controle social. É possível afirmar que jornalistas recebem salários não condizentes com o grau de exigência que lhes é imposto pelas chefias. Enfrentam um ambiente altamente competitivo, condições de trabalho precárias em muitas redações, além de falta de tempo para estudo”, diz Heloani.

Muitos dos entrevistados, na época da pesquisa, não tinham suficiente consciência da importância social de seu trabalho. Alguns também eram individualistas em excesso, além de parecerem influenciados pela imagem glamorosa que a sociedade possui em relação à profissão. “Verificou-se que ocorria (e ainda ocorre) uma deterioração da qualidade de vida do jornalista, cuja profissão naturalizou-se e banalizou-se, fato compreendido como extremamente grave, tanto do ponto de vista coletivo, como do individual”, observa a pesquisadora. As análises dos dados de ambas as pesquisas indicaram que a idealização acerca da atividade profissional tem um duplo aspecto.

                     "Já os jornalistas, queixavam-se de que suas matérias, produto do esforço de um jornalismo investigativo cada vez mais raro e menos reconhecido eram, em 70% dos casos, filtradas ou manipuladas". 

Por um lado gera frustração, face à realidade concreta da atividade profissional e das adversidades sócio-institucionais; por outro lado, é justamente a idealização, enquanto desejo de transformação, que mantém a força de resistência contra as adversidades sócio-institucionais e biopsíquicas". A idealização, nesse sentido, mantém acesa a chama, ou seja, a potencialidade crítica do sujeito estressado. Sendo assim, concordamos com Enriquez (1997) quando, ao analisar os textos ditos “sociológicos” de Freud, considera que os aspectos narcísicos não apenas se relacionam às ilusões individuais, mas também aos ideais utópicos de um coletivo.

A dimensão do prazer, assim, convivia com o seu oposto, tal como no enfrentamento dos guardas com a ineficácia da burocracia do sistema jurídico-policial. O esforço de levar infratores para a delegacia era muitas vezes visto como vão, pois era freqüente a ocorrência da liberação do apreendido, segundo a pesquisa de Silva. Já os jornalistas, queixavam-se de que suas matérias, produto do esforço de um jornalismo investigativo cada vez mais raro e menos reconhecido eram, em 70% dos casos, filtradas ou manipuladas. A decepção mostrava-se patente em ambos os casos.

No caso dos guardas municipais, era também comum a queixa em relação ao que nomeavam como “dois pesos e duas medidas”, no que concerne à política de promoções e de punições na instituição, assim como em relação às relações de poder entre distintas instituições policiais (Guardas Municipais, Polícia Militar, Polícia Civil). Tal aspecto era similar ao de que se queixaram alguns jornalistas, ao verbalizar frases como: “há ciúmes de um lado e intrigas de outro. Eu sei que jornal é uma fábrica de intrigas...”, “tudo lá é muito tenso. Tudo é no grito. E daí eu fiquei doente...”

Guardas e jornalistas são igualmente expostos com frequência ao público e à mídia. Em ambas as categorias verificamos queixas de falta de apoio ou de abandono da instituição em decorrência de processos derivados do exercício profissional. Várias equipes de guardas verbalizaram “falta de respaldo” por parte do “comando”. O trabalho bem feito não era reconhecido como os guardas desejavam, ao passo que os percalços e equívocos eram dura, senão injustamente criticados.

Nas palavras de um jornalista evidenciamos algo similar: “a maioria dos jornalistas sofre processos...”, “nunca fui processado, mas já testemunhei em processo de colegas” . Um dos entrevistados ressaltou que, na atualidade, as empresas deixam a cargo de seus empregados a sua própria defesa, o que não ocorria em décadas anteriores.

Ele mencionou o caso do jornalista Paulo Francis que, ao denunciar a diretoria da Petrobras de ter conta na Suíça, teve que trabalhar em vários jornais ao mesmo tempo, na América do Norte, com o intuito de angariar recursos para sua própria defesa no processo. A sobrecarga de trabalho era evidente. Em 1997, morreu aos 66 anos, em Nova York, após sofrer um infarto.

Vale ressaltar outro aspecto em comum que verificamos na nossa análise comparativa do estresse no trabalho de guardas municipais e de jornalistas. Ele diz respeito aos limites da atuação profissional. No caso dos guardas, as ambiguidades em relação ao uso de armas e ao poder de polícia. Já no caso dos jornalistas, em relação à exigência ou não do diploma para o exercício da profissão.

Pesquisa  completa pode ser acessada no seguinte endereço:




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