VER-O-FATO: Entre extremistas e movimentos chapa-branca, a população que é roubada

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Entre extremistas e movimentos chapa-branca, a população que é roubada


                                         David Carneiro: visão lúcida do protesto de ontem


Nem tudo é festival de bobagens, qualificações e desqualificações sobre os protestos de ontem contra o governo - na verdade, indiretamente contra todos os governos, do federal ao municipal, envolvidos com a corrupção e malfeitos administrativos - como o que tem sido publicado no Facebook, Twitter e outras ferramentas daquilo que se convencionou chamar de redes sociais.

A prova de que também há lucidez, vida inteligente, coragem e independência para dizer o que pensa, veio de um paraense que hoje estuda nos Estados Unidos. Ele se chama David Carneiro e é pesquisador visitante na Harvard Law School, onde está concluindo Doutorado em Direito pela Universidade Estadual   do Rio de Janeiro (UERJ). Leiam o que o David - que autorizou a publicação aqui no blog - escreveu sobre as manifestações: 
  
"Brincadeiras à parte, reconheço a legitimidade e até a importância dessas manifestações. Jamais iria pra rua em atos articulados "por" ou com a participação "de" grupos reacionários que se expressam no nível do retardo mental, como esse "Revoltados Online" e outros. Mas o que está acontecendo é fruto da indigência moral de todo um campo político que preferiu desqualificar os anseios de boa parte da população a dialogar com eles, em uma fixação neurótica de negação da realidade.

A mídia é oligárquica e parcial? Sim. Existe muito ladrão tirando selfie e batendo carteira enquanto grita "fora Dilma"? Também. Sempre existiu propina e caixa 2? Basta conversar meia hora com qualquer amigo que tentou um contrato público do Oiapoque ao Chuí. Mas, ainda que saibamos de tudo isso, o que o governo e sua coalização social propõem? Ao que parece, dizer que tudo continuará como está até que se aprove seu programa máximo, a proibição total do financiamento privado de campanha. 

Até lá, vamos culpando a mídia golpista (sim, parte dela é) e dizendo que no governo FHC era pior (se não houvesse um engavetador geral, de fato, o saberíamos). Enquanto isso, nada de reformas microestruturais, propostas de governança, reforma e democratização do Estado. O governo Dilma conseguiu até a proeza, depois de uma crise como essa, deixar a discussão da lei de governança das estatais para o Congresso e deixar a agenda positiva pós-ajuste ser pautada pelo senador Renan Calheiros. O que esperar daí? O que esperar como resposta à falta de ideias e práticas republicanas?

O que acho que tem gente com dificuldade de entender é que entre os movimentos chapa-branca e os extremistas que hoje pautam os grupos de oposição e suas lideranças hipócritas, existe a maioria esmagadora da população, que trabalha de 8 a 12 horas por dia, se mata para pagar seus impostos, passa horas por dia no trânsito e, quando chega em casa, descobre que está sendo roubada. Ah, mas a Globo mente! E que alternativa foi construída em todos esses anos? O Brasil 247?
 
Com isso, não digo que nada foi feito. As ações da CGU, as inovações em transparência e acesso à informação, foram fundamentais para combater a corrupção nos últimos anos, mas o governo e o campo que lhe dá sustentação tiraram das pessoas uma coisa fundamental: o direito de acreditar nas instituições. Talvez o maior "crime de responsabilidade" que possa ser cometido em uma jovem democracia como a nossa.
 
O que não dá é pra chamar todo mundo que protesta contra a corrupção de golpista, dizer que odeia crente e classe média e chamar todo mundo que tem medo da violência de fascista. Só aí, já foi 70% do povo brasileiro. 

E depois ainda perguntam porque a direita cresce no país."

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