VER-O-FATO: A novela do Pedral do Lourenço. Agora acaba?

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A novela do Pedral do Lourenço. Agora acaba?

As promessas, de tão velhas, porque não cumpridas, caíram no descrédito da população do sul e sudeste paraense. Agora, a vela da esperança reacende sobre o quase moribundo projeto de derrocamento do Pedral do Lourenço. O novo edital, segundo garantia do diretor de Infraestrutura Aquaviária do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), Valter Casimiro Silveira, será publicado até o próximo dia 30.

A bancada federal do Estado em Brasília, empresários e prefeitos foram testemunhas da nova promessa, acrescida de outra: o projeto foi novamente incluído no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), de onde havia sido retirado. Se os políticos e a classe empresarial acreditaram na conversa do diretor, é melhor conferir.
 
Se acreditaram, não é porque gostem de ter sido enganados outras vezes. Eles querem a obra, porque ela é realmente importante para o desenvolvimento da região e do Pará. Desse ponto de vista, vale a pena cultivar o otimismo. Afinal, nada mais se perdeu, durante todos esses anos, do que a credibilidade do governo federal em tirar o derrocamento do papel.

O ex-presidente Lula, por exemplo, nos dois mandatos exercidos, vendeu a ilusão de que em seu governo a obra sairia. Não saiu. Pagou a pecha de mentiroso. Eu estava nessas entrevistas de Lula, quando ele veio ao Pará, cobrindo-as para o jornal “O Estado de São Paulo”, do qual sou correspondente.

Lula me chamou de “pessimista” quando indaguei se o Pedral do Lourenço não era promessa de político em busca de reeleição. Fiz meu papel de jornalista ao questioná-lo. O Brasil vivia uma fase de estabilidade econômica e o governo do petista vendia a ideia de que 40 milhões de brasileiros haviam deixado a miséria para ingressar na chamada classe média.
 
 O dinheiro jorrava dos cofres públicos – agora sabemos, graças à operação Lava-Jato, que parte era destinada a obras, enquanto outra parte caía direto no bolso de corruptos – e havia chegado o momento de investir na remoção das rochas que impedem a navegação do Tocantins num percurso de 43 quilômetros.

Dilma, candidata de Lula à sucessão dele, durante a inauguração da Alpa, em Marabá, no ano de 2010, voltou a falar sobre o derrocamento do pedral, anunciando a retomada do projeto, embora sem mencionar que Lula deixara de cumprir sua palavra. Mais uma vez, eu estava lá. Contudo, não me deixaram entrevistá-la, como fizeram com todos os jornalistas da imprensa brasileira que cobriam aquele ato de campanha eleitoral.

Vi Dilma ser aplaudida demoradamente por alguns esquecidos que sequer se deram ao trabalho de cobrar de Lula a razão de não ter cumprido a promessa. Entre políticos, por óbvia conveniência, a memória curta é maior que a dos eleitores que neles votam.

Vale a pena lembrar: dos três editais, dois foram cancelados e um publicado, mas sem atrair o interesse de nenhuma empresa, por causa do baixo preço cotado. Três projetos, com preços e concepções diferentes, também foram para o brejo. Um deles era da Vale, que condicionou a implantação da Alpa à navegabilidade do rio. O governo não aceitou, porque sentiu a faca da chantagem no pescoço.

Descobriu-se, mais tarde, que a Vale, num lance de esperteza, especificava em seu projeto, feito por uma empresa de consultoria norte-americana, um tipo de embarcação exclusivo da própria Vale. Ou seja, o projeto tornava inviável qualquer outro tipo de embarcação para trafegar pelo canal que não fosse da Vale.
 
 O discurso da não implantação da Alpa em razão da navegabilidade do Tocantins foi desmontado. A Vale só pensava nela própria. Para variar. Quando o Pedral do Lourenço um dia for removido, seja daqui a dois anos ou até o final desta década, teremos finalmente o que comemorar.

Afinal, uma caveira de burro terá sido removida do fundo do rio Tocantins. Ela foi lá enterrada pela insensatez dos governantes.
(meu artigo de estreia no Correio, o jornal de Carajás)

                               Em 43 km, o rio Tocantins é só rochas, que terão de ser removidas

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