VER-O-FATO: A guerra entre Diário do Pará" e "O Liberal": tudo pelo poder. No passado, em outras guerras políticas, até jornalista foi assassinado.

sábado, 22 de agosto de 2015

A guerra entre Diário do Pará" e "O Liberal": tudo pelo poder. No passado, em outras guerras políticas, até jornalista foi assassinado.

Quem vê e lê há 30 anos a guerra entre os veículos de comunicação dos Barbalho e dos Maiorana - ambos atrelados a governos, e isso não é de hoje - deveria mergulhar na história política do Pará para tentar entender melhor porque os políticos não se unem em favor do desenvolvimento do nosso Estado. Na verdade, fica bem claro que eles só pensam em seus próprios interesses. 

Lá atrás, bem lá atrás, no começo do século XX, lauristas e lemistas se atacavam com fúria, atentados e muito sangue nas ruas. Depois, tivemos baratistas e oposicionistas, com ódio saindo por todos os poros, matança e ataques diários pela imprensa. O banho de fezes no jornalista Paulo Maranhão, da "Folha do Norte", é apenas um dos muitos exemplos desses confrontos que hoje se repetem e devem se intensificar, mais uma vez, nas próximas eleições.

Jornalistas como Expedito Leal, um dos mais competentes que temos, recorre a suas pesquisas, sempre muito interessantes, para mostrar a realidade da política regional. No Facebook, ele conta, com detalhes estampados em jornais da década de 50, como foi assassinado o jornalista Paulo Eleutério Filho, durante um tiroteio dentro da redação do jornal "O Liberal". 

Bebam nessa fonte inestimável dos arquivos do Expedito, os fatos como os fatos ocorreram.  Expedito, como sempre gentil, autorizou a reprodução de sua narrativa e as fotos de seu implacável arquivo. 
 
A morte de Paulo Eleutério Filho

"A eleição de 1950 foi a mais acirrada, apaixonada e truculenta, onde a violência física e verbal extrapolou todos os limites da intolerância entre baratistas e coligados. O pleito para governador teria de um lado o general Magalhães Barata e do outro, o também general Zacarias de Assumpção, um mato- grossense que era o comandante da Zona Norte do Exército. Barata era apoiado por seu partido o PSD(Partido Social Democrático) e Assumpção pela Coligação Democrática Paraense um conglomerado partidário (UDN, PSP e PSB entre os mais fortes) contrários ao caudilho marajoara.

Quem estava governando o Estado era o coronel Moura Carvalho também militar do Exército e amigo de Barata que vencera Assumpção em 1945, após o fim do Estado Novo, a ditadura getulista que durou 15 anos.Barata fora nessa época o interventor no Pará, nomeado por Vargas.E apesar de algumas medidas de caráter socializantes realizadas em favor dos pobres, era uma pessoa autoritária, truculenta e sem escrúpulos políticos em defesa de seus amigos.Mas era idolatrado pelo povão, especialmente a “caboclada” - como costumava chamar aos seus correligionários interioranos.

No período pré-eleitoral, o clima foi ficando cada vez mais tenso pela guerra midiática travada entre os jornais Folha do Norte dirigido pelo proceloso jornalista Paulo Maranhão e O Liberal que pertencia ao PSD e era o porta-voz inflamado do baratismo.A “Folha” era a dona da opinião pública belenense.O que Paulo Maranhão escrevia em seu jornal tinha o condão da verdade para seus leitores: a quase totalidade da população metropolitana. O “Liberal”, porém, incomodava por seu conteúdo panfletário e acutilante nas críticas contra os líderes coligados, principalmente o general Assumpção.

A guerra na imprensa tomou conta dos dois jornais rivais .Através de artigos virulentos que eram assinados, apócrifos ou escritos com pseudônimos.Pelo lado da “Folha” alguém com o codinome de Cabano extravasava todo seu ódio contra Barata e seus seguidores.Era identificado, porém, como sendo o ajudante- de -ordens de Assumpção, o capitão Humberto Vasconcelos.Os editoriais e artigos do jornal baratista tinha entre outros, João Malato que era o redator-chefe, como um de seus pilares na pesada artilharia escrita.

Em resposta a um dos comentários destemperados escritos por Cabano, o “Liberal” extrapolou com um artigo apócrifo em que fazia menção maledicente à prótese(mão de borracha) que Humberto Vasconcelos usava no braço direito.Ele fora obrigado a se submeter ao implante após ter explodido uma granada, segurando-a para fora do local onde realizava ensinamentos a seus alunos na Escola Militar no Rio de Janeiro.Pelo gesto corajoso fora considerado herói nacional pelo Exército.Evitara, possivelmente, a morte de alguns de seus discípulos. O artigo fora atribuído à lavra de João Malato que morreu, entretanto, sem nunca assumir a sua autoria.
 
Desnorteado pelo conteúdo ofensivo à sua honra, Vasconcelos procurou tomar satisfações com quem de direito. No dia seguinte, um sábado de 20 de maio depois de passar na chefatura de Polícia (Eleutério ocupara recentemente o cargo de chefe de Polícia)dirigiu-se à redação de O Liberal que ficava na Praça Dom Macedo Costa, em frente à antiga Central de Polícia.Eleutério era o solitário redator presente àquela hora.

Por volta das 10h Humberto Vasconcelos adentra a redação e vai tomar satisfação com Eleutério sobre o artigo.Os dois que já mantinham antipatia mútua desde quando trabalharam no governo do então território do Amapá, à época governado por Janary Nunes, logo se descontrolaram.E daí em diante rapidamente estão de revólveres em punho.Vasconcelos era um especialista em armamentos e Eleutério cultivava também a mesma arte.

O tiroteio começa e sendo alvejado por primeiro, Eleutério descarrega rapidamente sua arma, atirando a esmo. Vasconcelos percebe que o adversário esgotara sua munição e por isso mesmo descera correndo a escada da redação e homizia-se na oficina do jornal.Procurando proteger-se atrás de uma das colunas de cimento. Ou em busca de recarregamento para seu revólver.É atingido novamente por Vasconcelos.Desta vez no pulmão e no fígado.

O adversário sai em desabalada carreira pela rua e refugia-se no Café Carioca que ficava na avenida 15 de Agosto(atual Presidente Vargas).Com a polícia em seu encalço, logo foi alcançado e preso no bar.Levado para a Central de Polícia, teve no entanto o apoio imediato de seus colegas do Exército e por isso sendo transferido para o Hospital Militar pois também apresentava ferimentos.

Ainda que socorrido com vida e levado para a Santa Casa onde foi operado por cerca de seis médicos, Eleutério não resiste às delicadas cirurgias e poucas horas depois vem a falecer.

Os desdobramentos dessa crise foram terríveis até a realização da eleição em outubro quando Assumpção por estreita diferença de votos derrotou Barata e governou o Estado no período 1951/1955.

O capitão Humberto Vasconcelos foi julgado e impronunciado(quando a acusação é considerada improcedente) alguns anos depois. E ainda seria eleito deputado estadual pela “Coligação” nesse mesmo pleito passando a gozar de imunidade parlamentar. Pouco tempo depois, entretanto, romperia com o novo governador e seu ex -amigo de caserna.Como também fizeram outros deputados “coligados” como Cléo Bernardo, Imbiriba da Rocha e José Maria Chaves todos eleitos naquela legislatura.

As pesquisas as quais recorri nos jornais daquela época, respaldaram-se em dois periódicos tidos como imparciais em seu noticiário:A Província do Pará, já pertencente aos Diários Associados e O Estado do Pará que era dirigido com isenção crítica por Santana Marques, um dos maiores nomes do jornalismo paraense de todos os tempos.

Segundo informações da biblioteca do Centur, a coleção da Folha do Norte daquela época está em processo de digitalização e a do Liberal não consta do catálogo jornalístico do ano de 1950".

Fotos:
1 - A manchete do "Estado do Pará" narrando a tragedia;
2 - Paulo Eleutério Filho;
3 - Humberto Vasconcelos no momento da prisão;
4 - Recortes de jornais da época.




                                        A vítima: Paulo Eleutério Filho


4 comentários:

  1. Faria uma correção apenas no tempo da ditadura varguista. Os 15 anos que Vargas governou de forma ininterrupta, de 1930-45, em alguns momentos teve ares democrático, como no breve período de 1933-1935. O fechamento total das instituições (parlamento, partidos, eleições) só vai ocorrer entre 1937-45. É bem verdade, que antes da constituição de 34, Vargas governou através de decretos-leis.

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  2. Como você bem disse, caro Humberto, teve alguns momentos de "ares democráticos", mas também teve no Estado Novo o DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda, que perseguia opositores, censurava jornais, fazia o diabo. Os males de qualquer ditadura, seja de direita ou de esquerda. Um abraço e volte sempre por aqui. Sua opinião é muito importante.

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  3. Meu avô é e sempre será um herói para todos nós. Sua morte deixou marcas em diversas gerações, inclusive em mim, mesmo sem ter tido a oportunidade de conhecê -lo desfrutar das alegrias de uma neta ao lado do avô. Em nossa famíia, mantemos as lembranças de sua curta vida, sempre presente.

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