VER-O-FATO: Ódio político cria arte?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ódio político cria arte?



Quatro meses depois de abril de 1964, quando os militares brasileiros implantaram uma ditadura política no país, Sérgio Ricardo, da ala mais radical dos compositores de Música de Protesto, chegou a incentivar a reação armada, através de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha. Enquanto as cenas da película eram projetadas, os espectadores ouviam “Romance do Deus Diabo” (“Eu não me entrego ao tenente. Não me entrego ao capitão. Eu me entrego só na morte. De parabelo na mão”.).

Outros artistas, contudo, se dispuseram a servir o regime militar. A repressão política tinha obrigado Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré a se exilarem em países estrangeiros. Neste momento, a Assessoria Especial de Relação Pública da Presidência da República, desencadeou campanha publicitária para convencer a população de que os exilados eram maus brasileiros. Seu slogan: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Don e Ravel, então, compuseram “Eu te amo, meu Brasil”..

Divisões, dentro da música popular no Brasil, por motivos políticos-ideológicos, já ocorrera antes. Em 1941, em plena Ditadura Vargas, Wilson Batista e Ataulfo Alves criticaram a exploração dos trabalhadores nos versos de “Bonde São Januário”. Neles, diziam que o veículo levava “um otário”, e, acrescentavam: “Sou eu, que vou trabalhar”. A censura do Estado Novo os obrigou a mutilarem a música. Tiveram de trocar “otário” por “operário”. Mas quando Getúlio já havia sido afastado do poder, o retorno dele foi pedido numa música que o tratavam carinhosamente de “velho”: “Retrato do Velho”, de Haroldo Lobo e Marino Pinto (“Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar. O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar”).

Nos dias atuais, é Lobão quem está no front avançado da luta ideológica nesta área de nossa cultura. Hoje, admirador de Fernando Henrique Cardoso, ele chegou a chamar, no twiter, Mano Brow de “papagaio piegas e recalcado” do partido de Lula. O vocalista do Racionais Mc’s, revidou no mesmo tom. Declarou que Lobão agia “como uma puta” para vender o seu livro "Manifesto do Nada na Terra do Nunca".

Em 2010, na Bienal de São Paulo de 2010, o pintor e escultor Gil Vicente apresentou uma série de desenhos a carvão, intitulada “Inimigos”, com o propósito de chamar a atenção do público para o efeito do ódio político na criação artística. Retratou a si próprio matando FHC e Lula e outras personalidades.

(Oswaldo Coimbra, poeta, jornalista e professor, doutorado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo)

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