VER-O-FATO: Jornalista satiriza Turma da Mônica no Círio de Nazaré, mas é censurado

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Jornalista satiriza Turma da Mônica no Círio de Nazaré, mas é censurado


 

O jornalista paraense Anderson Araújo sentiu na pele, ou melhor, no texto, o que é violação à liberdade de expressão no Brasil. Ele resolveu fazer uma sátira à Turma da Mônica, do escritor Maurício de Sousa, que em setembro próximo lançará uma revistinha, contando a saga de seus personagens no Círio de Nazaré.
Como o livro de Sousa ainda está em fase de finalização, Anderson criou uma historinha gostosa, bem escrita, misturando situações dos personagens Magali, Cascão, Cebolinha e Chico Bento com o dia-a-dia da cidade de Belém, com seus hábitos e costumes, alguns deles tão patéticos quanto engraçados.
Ao postar a historinha no Facebook, Anderson logo percebeu que milhares de internautas das redes sociais, incluindo o aplicativo whatsapp - uma febre virtual que em questão de minutos mobiliza até os indiferentes – passaram a compartilhar o que ele havia escrito. Alguns, omitindo o crédito do autor da brincadeira.
Um produtor de Maurício de Sousa não gostou e teria pedido que o Facebook retirasse a postagem de sua rede, o que ocorreu. Alegou-se, posteriormente, que o pedido havia sido feito por um anônimo. Deve ser um anônimo muito ilustre. 
De qualquer maneira, a sátira pegou, principalmente depois de ter corrido a informação de que havia sido censurada. A censura imposta a Anderson Araújo, na verdade, viola jurisprudência da corte suprema do judiciário brasileiro, o Supremo Tribunal Federal (STF).
Anderson Araújo não está sozinho na tentativa (frustrada) de calar sua pena satírica. Ano passado, no Brasil, ocorreram 55 violações à liberdade de expressão, um aumento de 15% em comparação com 2013.
Veja, abaixo, a íntegra da historinha da Turma da Mônica no Círio de Nazaré, na versão de Anderson Araújo (foto acima).

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“Vazou o roteiro da esperada revistinha da Turma da Mônica no Círio de Nazaré, que será lançada em setembro deste ano, mas você confere aqui em primeira mão:
Mônica convida a turma para ir a Belém do Pará pagar a promessa na corda do Círio por ter alcançado uma graça por intermédio da santinha: colocar aparelho nos dentes e emagrecer dez quilos só tomando herbalife.
Magali, Cascão, Cebolinha e Chico Bento topam.
Eles descem no aeroporto e são imediatamente enganados por um taxista, que cobra os olhos da cara para levar o grupo até à Cidade Velha, onde se hospedam em um hotel pirento com preço de cinco estrelas.
Na sexta, Magali tira graça e come ao mesmo tempo maniçoba, pato no tucupi, tacacá, vatapá, caruru, açaí com peixe frito. No sábado na hora da Trasladação, já azul e revirando os olhos, a coitada vai bater no PSM da 14. Lá, a turma é informada que só tem vaga no Guamá. “O pronto socorro incendiou, caralho”, diz uma recepcionista, super carinhosa. A 192 chega duas horas depois, mas a comilona não resiste: morre a caminho da outra unidade hospitalar.
O coxinha da galera, também conhecido como Cebolinha, fica furioso e começa a xingar Fola Dilma, Fola PT, Volta Ditadula, e sai andando pelo Guamá em protesto. Só percebe a merda que fez quando três malacos o cercam. Vítima de sequestro relâmpago, é abandonado nu na Alça Viária, já perto da ponte que desabou no rio Moju. Sem sinal de celular passa o resto da história cholando, cholando, cholando.
Mônica, desesperada, liga pro Chico Bento para pedir ajuda. Já é tarde da noite e o matuto está todo prosa, tomando um Cantina da Serra no Bar do Parque e dando pinta com o Eloy Iglesias na Festa da Chiquita. Mônica reclama: “bem que eu desconfiava que Chico era uma bicha do mato”.
A essa altura, a baixinha supera o falecimento da migs Magali e vai pra corda a fim de garantir o lugar. Cascão vai de apoio afastando a galera com a suvaqueira. “Só não vou ficar nessa de dar água. Te vira”, diz ele, que adorou saber que a capital ficou uma semana sem água nenhuma nas torneiras por causa da Cosanpa.
Mônica não consegue cumprir o trajeto inteiro. Solta a corda bem em frente da Varanda da Fafá de Belém, que a reconhece e a chama para subir e acompanhar as celebridades convidadas: Padre Fábio de Melo, um cantor de MPB esquecido e dois atores da Malhação que ninguém ouviu falar. Mas, a filha de Maurício de Sousa está exausta. Nem se tocou que cometeu o pecado de levar bolsa pra romaria: perdeu tudo, ficou sem grana até pró ônibus.
Com os pés esfolados, toda ardida de sol, sem lenço nem documento, senta na calçada aos prantos. Repórteres reconhecem a personagem. Perguntam se é emoção e ela, encaralhada, relata toda a desgraça a que foi submetida. As reportagens são barradas por alguém da comunicação do Governo do Estado. O caso é abafado para não queimar o Pará junto á opinião pública nacional. Éder Mauro, o ex-delegado e hoje deputado, volta à ativa para pôr ordem na casa e ajudar os vips, que se foderam bonito na capital paraense.
Éder Mauro recupera os pertences de Cebolinha, que é encontrado atônito e sem roupa pras bandas de Marituba. Localiza Chico Bento bebendo lokalokalokadocudela no Bar da Angela no Guamá. Cascão dá o despinte e diz que já deu de turma da Mônica: encerra a carreira e se amanceba com uma morena jeitosa que conheceu num dos empurra-empurra na curva da Presidente Varga, logo de manhã. Vira vendedor de chip da OI/Tim/Vivo/Claro e aluga uma casinha no Curuçambá, onde vai morar com a mulher, antes de morrer de câncer de pênis por absoluta falta de higiene, sem vaga no Ophir Loyola.
O delegado escolta os sobreviventes até o Aeroporto. Uma sósia de Magali é posta no lugar para que ninguém saiba da morte por falta de atendimento no PSM do Guamá.
Aclamado como herói do dia, Éder Mauro pede como prêmio pelo salvamento dos personagens que o desenhista Maurício de Sousa o transforme também em desenho numa próxima edição. O autor diz que, nem fodendo, porque o Franjinha já existe e não pode ser substituído. Éder Mauro jura vingança.
Do avião da Gol, Mônica olha pela janela o rio Guamá serpenteando entre a floresta e a cidade ficando pequena. Leva um leque da Sadia na mão com a letra de Vós Sois o Lírio Mimoso. Cebolinha se treme inteiro, não recuperado do choque. Chico Bento é o único feliz e pensa: “ano que vem tem de novo, sô”.
Fim.
(É óbvio que isso é uma sátira. A revistinha vai ser lançada ainda pela editora Santuário. E eu também quero ler, a de verdade).”

16 comentários:

  1. é sério que isso foi censurado? Mas já pode falar mentira em jornais de alcance nacional...

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  2. Muito, mas muito bom mesmo, parabéns ao autor. Apláusos e garalhadas é o que o texto merece.

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  3. Gargalhando muuuuito ate o cirio de 3015!!!! 😂😂😂😂😂😂

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  4. Dedé, meu amigo querido, vc é o máximo!!!! Escreveu nessa sátira tudo o que milhares de pessoas pensam e vivenciam na nossa cidade e a grande maioria não tem coragem de falar a respeito!
    Te admiro muito como pessoa e sou fã do que vc escreve!!!
    Um grande beijo... Conte comigo!!!

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  5. Adorei a história! Por quê? É real! Vi meus parentes e pais de amigos morrerem no Ophir Loyola por falta de assistência adequada e falta de remédio, sofri uma semana inteira de JULHO (único mês que trabalhador pode descansar) carregando baldes de água de casa de vizinho que tem poço, pois a cosanpa simplesmente não trabalhou como deveria... Órgão público... fazer o que né? Já fui assaltada diversas vezes, e isso inclui apontarem a arma na minha cabeça em plena luz do dia. E por fim me sinto indignada com esses convidados VIP's (incluindo a famosa FAFÁ DE BELÉM QUE NÃO MORA AQUI A SÉCULOS) que vem para o círio falar que belém é uma cidade maravilhosa! PARA O POVO ABANDONADO RESTA IR PARA O CÍRIO PEDIR PARA NOSSA SENHORA DE NAZARÉ QUE ROGAI POR NÓS!

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  6. Adorei!!! Saiu fiel a nossa realidade! Não só a paraense! Estamos a mercê de governantes que apenas maquiam os problemas!

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  7. Engraçado é que ele também fala de censura na história, quando os repórteres tentam entrevistar a Mônica. Qualquer semelhança...

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  8. O que não se pode esquecer é essa turminha é infantil! Se você, caro jornalista, quer se promover não use personagens em porencial na vida das crianças. Há desgraças em Belém? Sim! Mas a magia deve ser preservada... É por causa de pessoas como você que nossos pequenos estão descrentes... Se as crianças são o amanhã, que futuro será esse se elas virem seus personagens sofrendo e se acabando na cidade em que elas moram?
    E se servir de conselho: crie seus próprios personagens, talvez você tenha uma turminha política que dê certo...

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    1. Parabéns pela educação e por acreditar q as crianças são o amanhã e q o mundo está assim pq todo mundo acha engraçado sofrer.se todos pensassem assim, nossos filhos estariam mais bem cuidados, mas como ser ruim parece q é o correto, até a homenagem do Maurício de Sousa é desmerecida. Por isso q ninguém vem aqui. Oportunidades jogadas no lixo pq desmoralizar a Cultura é mais engraçado do que primárias por ela.

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    2. Parabéns pela educação e por acreditar q as crianças são o amanhã e q o mundo está assim pq todo mundo acha engraçado sofrer.se todos pensassem assim, nossos filhos estariam mais bem cuidados, mas como ser ruim parece q é o correto, até a homenagem do Maurício de Sousa é desmerecida. Por isso q ninguém vem aqui. Oportunidades jogadas no lixo pq desmoralizar a Cultura é mais engraçado do que primárias por ela.

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  9. Ei mano...,Vai tomar no cú....tu és um otário.

    Se eu te encontro na rua(e sei onde moras,por ser parente da minha amiga), quebro a tua cara.

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  11. Censura não tá com nada. O texto é bem escrito, apesar da linguagem desnecessariamente chula em alguns trechos. Chega a ser divertido o confronto da turminha com a realidade da violência e da incompetência governamental tão infelizmente típicas do nosso estado. Só não podemos esquecer que essas mazelas não são exclusividade do Norte. Uma coisa me incomodou, o viés negativo assumido pelo texto no retratar a cidade através de seus defeitos. Não que Belém não os tenha aos montes, tem sim, muitos, mas tem também aspectos positivos e curiosos de nossa rica cultura que poderiam ter sido incorporados ao texto. Que o paraense tem complexo de vira latas isso não é novidade, padecemos deste maldito complexo, mas nossos defeitos nao precisam ser publicados por nós mesmos, paraenses, esse papel já é cumprido com maestria pelos habitantes das outras regiões do país, até mesmo pelos nordestinos, nossos principais rivais em matéria de desgraça. Enfim, penso que o direito de expressão deve ser defendido, mas penso também que as poucas oportunidades de valorizar nossa riqueza cultural não devam ser desperdiçadas, principalmente por quem tem o maravilhoso dom da escrita.

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  12. Utilizar-se de textos ou personagens de outros autores não é plágio? Acho que esse cidadão tem criatividade suficiente para criar seus próprios personagens para mandar seus recados.

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