VER-O-FATO: A IMPUNIDADE QUE ENVERGONHA O PARÁ

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A IMPUNIDADE QUE ENVERGONHA O PARÁ

 A impunidade parece ter fixado moradia definitiva no assassinato, que neste mês de julho completa onze anos, do pequeno produtor rural de Novo Progresso, Adilson Prestes, morto com seis tiros disparados por pistoleiros em uma motocicleta que o surpreenderam quando chegava em sua residência.
O crime teve repercussão em todo o país, mas as autoridades do Pará nada fizeram para que o caso fosse esclarecido. Adilson Prestes, conhecido por Piá, era integrante da Pastoral da Juventude da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no oeste do Estado e também um homem marcado para morrer.
Ele esteve em Belém por diversas vezes, denunciando madeireiros e fazendeiros poderosos de Novo Progresso e Itaituba, acusados por ele em um dossiê entregue à Polícia Civil, ao Ministério Público do Estado (MPE) e à Polícia Federal (PF) de grilagem de terras, derrubada da floresta para extração ilegal de madeira, tráfico de drogas e crimes de encomenda.
Do esquema por ele denunciado também participariam policiais militares da região.A família de Prestes ainda mora em Novo Progresso. Uma irmã dele, Ivanilde, chegou a denunciar ameaças de morte que ela e o marido vinham sofrendo depois do crime. Ela disse que os matadores e mandantes da morte de seu irmão nunca foram molestados pelas autoridades. Continuam livres, leves e soltos. Um dos suspeitos de participação, conhecido por José Paulo Leite, chegou a ter sua prisão decretada pela Justiça, mas fugiu da cidade. Depois, obteve habeas-corpus preventivo.
O promotor que investigou o caso, Mauro Mendes de Almeida, acha que houve omissão. A Polícia Civil abriu inquérito para apurar as denúncias de Prestes, mas encerrou as investigações sem indiciar ninguém. O relatório “Observatório da Cidadania”, do Fórum da Amazônia Oriental – FAOR, acusa que em 2003, Adilson Prestes ficou 39 dias preso e foi torturado pela Polícia de Itaituba. A acusação contra ele foi de porte ilegal de arma. “Eu andava armado para me proteger dos pistoleiros que queriam me matar, contratados pelo crime organizado que eu havia denunciado”, declarou Prestes, dois meses antes de ser morto. Ou seja, o denunciante virou denunciado.
Consórcio - Depois que concedeu uma entrevista em Belém à Rede Globo, apontando quem eram os predadores da floresta amazônica e os grileiros de terra, Prestes foi considerado pela emissora o Chico Mendes do Pará”, no dia de sua morte, em 3 de julho de 2004. A suspeita é de que ele tenha sido assassinado pelo mesmo consórcio de fazendeiros e madeireiros que havia denunciado. Uma situação idêntica à da missionária Dorothy Stang, morta menos de um ano depois, em fevereiro de 2005.
Respeitada a importância de cada uma das vítimas, irmã Dorothy era norte-americana naturalizada brasileira e tinha uma história de lutas em favor da reforma agrária e do desenvolvimento sustentado das terras do município de Anapu. Prestes, por sua vez, era um homem rude da floresta, ilustre desconhecido, que defendia a Amazônia a seu modo. Denunciava grileiros e predadores dos recursos naturais e era amigo dos índios caiapós, da reserva Baú. Era uma espécie de fiscal da mata e de sua biodiversidade. Fazia muitas vezes o papel do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na região.
Ele sempre aparecia na tribo para informar os índios sobre as invasões de suas terras e a retirada de madeira. A CPT de Itaituba cobra uma resposta do Judiciário para o crime. A entidade entende que a morte não esclarecida ou punida do pequeno produtor rural - que andava com um grande crucifixo com a imagem de Cristo no peito, como na foto abaixo -, envergonha o Pará


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